‘Reclamão’


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Não tive como deixar de ouvir o diálogo de dois amigos na fila dos correios. O primeiro – que depois descobri chamar-se Porfírio –, reclamava, gesticulava maldizendo a demora do atendimento. Quando fui chamado, ele investiu sobre a funcionária responsável pela ordem de chegada queixando-se de que havia chegado antes, portanto, na minha frente.

Ela, educadamente, esclareceu que idoso tinha prevalência, direito preferencial previsto em lei. Ele, entre resmungos, externava sua insatisfação com os minutos de espera que a vida impõe aos viventes, ocorrências que bem pensando, são naturais, tornando a jornada mais feliz se suportadas com a dignidade tolerante do equilíbrio.

O outro, o amigo conselheiro, o alertava de que a felicidade seria maior em sua vida caso deixasse de reclamar de tudo. A queixa é um componente da insatisfação a minar o íntimo do ser humano não permitindo gozar alegrias e prazeres tão importantes para o espírito das pessoas.

Porfírio retrucava insistindo que o mundo estava cheio de erros e difícil de suportar as regras a que todos são submetidos, onde se inclui o próprio nome aziago que lhe deram seus pais. Não sabia o reclamador que seu nome era o mesmo de personagem tão importante na história da filosofia, estudioso do neoplatonismo, discípulo de Plotino, do qual devia honrar-se desfrutando a felicidade por tê-lo recebido.

Entre os neoplatônicos à volta de Plotino, destacou-se Porfírio, responsável, muitos anos depois, por organizar e publicar obras do mestre – As Enéadas –, em 54 capítulos inseridos em seis volumes. Foi também Porfírio quem escreveu a biografia de Plotino e comentários sobre as obras de Platão e Aristóteles. À história de Plotino e Porfírio ligam-se figuras majestosas da filosofia, cabendo realce a Agostinho de Hipona antes de sua integral dedicação ao catolicismo onde se sagrou Bispo e Santo.

A dinâmica do mundo nos tem levado a encontrar, a cada momento, os rigores da impaciência humana nas repartições públicas, nas filas da lotérica, do supermercado, do banco, consultório do médico, no trânsito – cuja sinalização é ignorada em nome da pressa das pessoas, como Porfírio, que, sem um mínimo de urbanidade, agridem os princípios de boa educação.

Depois de ouvir as reprimendas do equilibrado conselheiro a seu chegado reclamão, coloquei-me a pensar que ainda restam esperanças para um mundo justo, em que paciência deixou de ser somente uma palavra constante do dicionário para ter sentido nas ações sociais e dar prazer aos relacionamentos.

Uma observação cabe para nossa lembrança: pululam constantes as alterações de conduta quando se multiplica queixas, evidente gerador de infelicidade nas pessoas. A aceitação torna a vida mais fácil quando policiamos o ter uma conduta amena se iniciando por um doce tom de voz.

Garcia Netto
Jornalista

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