Os acontecimentos que estão ocorrendo desde o começo do ano no Oriente Médio e, agora, pela Europa e Estados Unidos, demonstram, certamente, que mudanças interessantes (e ainda indefinidas) estão em curso, criando uma base para se rediscutir muitos valores políticos e sociais da sociedade moderna. A única certeza é que essa discussão não trará, em curto prazo, as respostas que buscamos e, muito menos, criará alternativas necessárias ao caos político, econômico e social estabelecido como consequência do neoliberalismo implantado a partir da década de 80 e que era tido, por boa parte do mundo, como irreversível.
As mudanças em curso provocam impactos nas relações da sociedade mundial, mas, indiscutivelmente, as primeiras ocorrem, justamente, no universo da produção econômica e nas relações comerciais e de trabalho. É, considerando as perspectivas ocasionadas pelas mudanças, que fico sem entender a lentidão com que setores privados brasileiros se movimentam para se prepararem para esses ‘novos tempos’. Exemplifico com um pequeno exercício, especulativo, sobre possibilidades que se vislumbram para o Oriente Médio após a consolidação da Primavera Árabe (onda revolucionária com protestos e manifestações). É região que concentra população de, aproximadamente, 270 milhões de pessoas, o que sinaliza mercado consumidor de grande potencial. A consolidação das mudanças no Oriente Médio será acompanhada pelas grandes nações ocidentais e asiáticas (China e Japão) porque as mudanças políticas poderão propiciar novas oportunidades de investimentos e de expansão do capitalismo chinês e, em contrapartida, resistência do capitalismo americano e europeu. O Oriente Médio torna-se, então, a região mais ‘delicada’ do planeta, considerando seu histórico de riqueza de petróleo (ainda em grande quantidade), sua íntima relação com o terrorismo internacional, a completa inexistência de estrutura industrial produtiva (portanto, com potencial de desenvolvimento), a proximidade estratégica com a China e Índia e, como já disse, potencial mercado consumidor.
Por essas razões, fica a dúvida: qual será o papel do Brasil no Oriente Médio? Qual é o tamanho dos nossos interesses naquela (e com aquela) região? Qual a estratégia que o Brasil (governo e setor industrial) deve ter para marcar presença ao lado dos árabes nesse período de mudanças? Será essa uma boa oportunidade do Brasil consolidar o seu papel de potencia emergente, tanto política quanto economicamente? Essas questões precisam ser feitas para acabar com a lentidão das nossas percepções e das nossas atitudes. Temos um vínculo histórico com o povo árabe, que não foi estabelecido através de imposições ou cerceamentos políticos. Portanto, há um imenso respeito e consideração do mundo árabe para com o Brasil e, certamente, nesse momento delicado de sua história, uma mão amiga será sempre bem-vinda. Nossas empresas poderão contribuir com os novos projetos de desenvolvimento que por lá surgirão. Basta que fiquem atentas às oportunidades e que tenham atitude. Acredito que o governo brasileiro tem feito sua parte naquilo que é politicamente correto e diplomaticamente possível, mas, a efetiva presença do Brasil no Oriente Médio só acontecerá através de parcerias econômicas e da implantação de projetos de desenvolvimento econômico e social. Para isso, a maior contribuição virá das empresas privadas que queiram aproveitar essa oportunidade para se internacionalizarem ainda mais.
Cassiano Pimentel
Professor universitário e agente de exportação
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