Ela acorda antes do sol nascer, toma café, sai do Jardim Pinheiros e às 6h45 já coloca e tira calçados de uma das máquinas de uma indústria na Avenida Brasil. Aos 19 anos, Mariana da Silva Nascimento faz parte da nova geração de sapateiros que pisam nos chãos de fábrica de Franca, mas sonham com um futuro diferente, distante dali. A rotina dela é comum a muitos francanos. O desejo de prosperar também.
Mariana não reclama do trabalho - elogia, até - mas, a depender de seus planos, as unhas pintadas de pink serão cobertas por luvas cirúrgicas um dia. “Quero ser técnica de enfermagem”, afirma, dizendo que se tornou sapateira porque precisava trabalhar - havia concluído o ensino médio. Ela está entre os trabalhadores do setor que tornam a classe menos homogênea (em escolaridade, comportamento e, especialmente, sonhos) que numa Franca de meados do século 20 e repete a realidade de outros jovens nas produções das fábricas.
A estudante do ensino médio Taciane Garcia de Melo, 17, buscava o primeiro emprego e encontrou oportunidade como assistente de montagem. Filha e irmã de “sapateiras convictas”, ela afirma gostar da profissão, mas, coincidentemente, também sonha em fazer um curso na área da saúde. “Gostaria muito de fazer algum curso de enfermagem, porque gosto disso. Mas, se não, pretendo continuar aqui, melhorando cada vez mais. Eu gosto de ser sapateira. Para a minha idade, por ser meu primeiro emprego, eu acho o salário bom”, disse.
A irmã de Taciane, Daiane Regina Ferreira, 26, trabalha na indústria calçadista há oito anos. Nesse período ascendeu a supervisora de sessão e valoriza a conquista, mas, assim como os outros, também quer avançar nos estudos para melhorar. “Pretendo fazer administração de empresas. Ser sapateira foi uma consequência por minha mãe trabalhar em casa, eu ter aprendido e precisar trabalhar. Optei por trabalhar com sapato porque, se eu trabalhasse em um mercado, por exemplo, ganharia menos do que eu ganho aqui”, disse, citando ainda que o horário (de segunda a sexta-feira) é mais interessante que o do comércio em geral.
José Rosa Jacometti, o Zuza, proprietário da Anatomic Gel, disse notar um desinteresse em aprender por parte dos jovens. “Sempre falamos que os sapateiros estão acabando. Mas o interesse por parte dos jovens pelas oportunidades está acabando. Não se tem orgulho pela profissão”, afirmou, dizendo que a questão, em um futuro que não sabe estimar, “vai ser problema”.
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