Impacto de um viaduto


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Viadutos são obras cujo uso dentro das cidades deve ser parcimonioso, em função de vários aspectos, em especial os ambientais e paisagísticos. Não é segredo o amplo debate em curso na capital paulista quanto ao destino do chamado Minhocão, um gigantesco viaduto no centro da cidade. Em Nova Iorque, a criação do High Line, parque elevado sobre as ruínas de outra estrutura do gênero tem atraído as atenções como exemplo de política de recuperação ambiental.

A tudo isso assiste impassível a população francana quando o autoritário governo municipal decide fazer um viaduto, como sonho pessoal a realizar, como um brinquedo que meninos birrentos precisam ter. Construir um elevado tem custo financeiro compatível, também elevado. O que deveria se discutir é o custo-benefício da obra, orçada em quase dez milhões de reais.

O impacto da obra será certamente grande. As duas faculdades municipais e o fórum serão prejudicados pelo ruído excessivo e pelo aumento de CO2 decorrente da ampliação do tráfego de passagem. Investimentos comerciais na região serão afetados e, possivelmente, não sobreviverão à deterioração do entorno das obras, facilmente comprovável em qualquer cidade do País. Um subproduto é que os moradores de rua que Sidnei expulsou do ‘piscinão’ poderão ter abrigo sob a estrutura.

O fato é que a Prefeitura não apresentou, com seriedade, sua proposta à Câmara. O ‘estudo’ de impacto ambiental tem míseras quatro páginas repletas de platitudes, desejos e lugares-comuns, nunca um estudo técnico. Frases como ‘trará incrementos à economia local’, ‘valorização estética e paisagística ao entorno, viaduto moderno, limpo e bem cuidado’ são vazias sem dados técnicos. Chega ao cúmulo de afirmar que durante o período de construção da obra ‘o fluxo de veículos nas vias adjacentes será pouco impactado’, sem apresentar nenhum dado sobre isso.

Não há qualquer medida mitigatória prevista, concluindo que ‘a construção do viaduto acarretará impactos, alguns incidirão somente em algumas fases da obra, outros terão caráter permanente, porém de baixíssima intensidade’. O que o simplório ‘estudo’ não revela é quais são, de fato, os impactos nem como remediá-los.

Se houvesse interesse das entidades de classe do setor, alheias ao que ocorre, e da própria Câmara Municipal em discutir em profundidade as questões urbanas, ‘estudos’ que revelam apenas o despreparo e a arrogância da administração não seriam feitos desta forma, sem cumprir o Estatuto da Cidade, sem revelar aspectos positivos e negativos do empreendimento, sem mostrar dados e elementos que imponham racionalidade ao debate e ao uso de recursos públicos que pertencem a todos e não aos desejos pessoais do prefeito.

É lamentável que a Prefeitura queira impor, sem qualquer discussão mais qualificada e séria, suas decisões sobre o espaço urbano.

A Prefeitura deveria demonstrar porque rejeita alternativas técnicas à solução adotada e quais os elementos que justificam assumir tal despesa. Afinal, quais são as justificativas reais para a obra?

Mauro Ferreira
Arquiteto e professor da FESP-UEMG

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