Como sardinha em lata


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SUFOCO - Ana Lúcia (sentada ao lado do sogro) e o marido se espremem no ônibus que faz a linha direta entre Aeroporto e Distrito
SUFOCO - Ana Lúcia (sentada ao lado do sogro) e o marido se espremem no ônibus que faz a linha direta entre Aeroporto e Distrito

A Câmara de Franca aprovou uma lei em setembro que limita a 17 o número de passageiros de pé nos ônibus da cidade. Sem nenhuma fiscalização, a lei parece piada para quem se espreme como uma sardinha em lata no transporte público nos horários de pico, entre 5h30 e 7 horas e das 16h às 18h. Em geral, os ônibus circulam nesses horários com cerca de 40 pessoas em pé, parte pendurada na barra e outra disputando um espaço até nos degraus.

Atualmente, 80 mil passageiros dependem do transporte coletivo em Franca. A Empresa São José, concessionária do transporte público, opera com 108 ônibus que circulam 24 mil km por dia.

A reportagem do Comércio percorreu as linhas mais lotadas —Leporace, City Petrópolis, Dermínio e Aeroporto— para testemunhar o sufoco dos passageiros. Constatou que, para buscar um pouco de conforto, muitos abrem mão de tomar o ônibus em pontos em frente as suas casas (e voltam alguns pontos), outros esperam o carro do próximo horário e outros madrugam.

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A auxiliar de pesponto Ana Lúcia Mories, 30, é uma das passageiras que madruga para chegar ao trabalho sem atrasos: ela acorda duas horas antes. O despertador toca 4h40. Às 5h10, ela e o marido, Luciano Lopes, 32, saem de casa para pegar a linha direta do Aeroporto para o Distrito Industrial. “A gente madruga, deixa até para tomar café na empresa para ganhar tempo, mas tem que ficar plantado e esperar que o ônibus não atrase”, diz a sapateira.

O horário do ônibus é 5h20, mas no último dia 29, uma quinta-feira, ele atrasou dez minutos. Ana Lúcia e Luciano conseguem se sentar. Mas depois de alguns quarteirões, não sobram mais vagas e Luciano precisa se levantar para ceder o banco para o pai, que trabalha na mesma empresa que ele. No percurso de cerca de 15 quilômetros e 45 minutos, eles seguem calados, quase dormindo.

Nesta viagem, a reportagem contou quase 40 pessoas em pé e mais 38 sentadas. Os passageiros em pé mal podiam se mover, embora a Empresa São José estime que naquele ônibus cabem 49 pessoas em pé. “Se entrar mais gente, teremos que sair pela janela”, disse a vendedora de cosméticos Sílvia Peres.

À tarde, Ana Lúcia enfrenta mais uma maratona para chegar em casa. Como não há ônibus diretos na volta, e é preciso fazer a integração no Centro e rezar para conseguir um lugar para sentar.

A conferideira Susan Machado, 48, que mora no Jardim Aeroporto III, opta por andar alguns quarteirões na direção contrária para viajar sentada, embora tenha um ponto de ônbius em frente de casa. “Meu dia no trabalho já é estressante. Com ônibus cheio desse jeito a gente estressa logo cedo. E não dá para ir sem sentar porque já passo o dia inteiro em pé.”

Nas linhas do Leporace, o sufoco e a lotação também são frequentes. A balconista Daniela Galvão, 24, sua mãe e os filhos gêmeos de 5 anos, que moram no Jardim Luiza, dependem dos coletivos para tudo. A mãe dela, a cozinheira Orani Rosa, 68, disse que, além do preço alto da tarifa e da superlotação, enfrenta o desrespeito das outras pessoas. “Elas parecem que fecham os olhos ou fingem que não estão vendo a gente com crianças pequenas. É raro alguém dar o lugar”, disse.

TARIFA
Além do desconforto, quem depende de ônibus reclama da tarifa. “O preço do ônibus só sobe e a gente não está vendo resultado desse aumento”, disse a sapateira Monique Jesus da Paz, 19. A tarifa aumentou de R$ 2,45 para R$ 2,65 neste ano. Em 2001 custava R$ 1,05.

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