Ministro na torcida


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Além de sua significação denotativa, o verbo ‘torcer’ assume no Brasil outras conotações, ligadas especificamente ao esporte. Torcer significa simpatizar-se com um clube ou um atleta, ficar na torcida. De certa forma, implica uma carga de energia muito grande, mas apenas na emoção, não na ação. Geralmente, quem torce está sentado diante de um jogo ou disputa. Sofre, se angustia, mas nada pode fazer. Pode gritar, chorar, acender vela ou apelar para santos e outras crendices. Mas não consegue entrar diretamente na disputa.

Nesse sentido, é interessante ouvir de nosso ministro da Fazenda que ele vai ficar na torcida para que não haja uma desaceleração da economia chinesa, conforme noticiou o Comércio em sua edição de terça-feira, 11/10. A matéria mostra que Guido Mantega acredita que essa situação poderia contaminar o país com o ‘vírus’ da crise econômica internacional. Mesmo considerando a boa intenção do ministro, assim como sua concentração nessa torcida, isso é pouco para o cargo que ocupa.

Um ministro deveria torcer menos e agir mais. Se não for um exímio conhecedor das modernas técnicas de gestão e planejamento estratégico, deveria ao menos se lembrar do velho ditado popular: não se deve colocar todos os ovos na mesma cesta. Se ela cair ou se perder, lá se foi a omelete.

Se isso vale para pessoas, vale também para empresas e países. Uma indústria de calçados, por exemplo, não deve direcionar toda a sua produção, ou um grande percentual dela, para um único comprador, algo que infelizmente já foi muito comum em nossa cidade (para algumas talvez ainda seja). Se um dia ele resolver comprar de outro fornecedor que lhe apareça com preço melhor, será difícil substitui-lo rapidamente.

O mesmo pode ser estendido a países. Não podemos depender apenas da exportação de commodities. Se nossa economia vai às mil maravilhas, como irradiam constantemente nossas autoridades, por que não a diversificamos ainda? Por que continuamos tão dependentes de produtos com baixo valor agregado, como sempre fizemos em toda a nossa história? Por que não aproveitamos esse momento de crescimento para adentrarmos firmemente o mundo dos manufaturados, sem deixar, no entanto, de perseverar no setor de commodities?

Pelas palavras do ministro, parece que ainda viceja entre nós a teoria da dependência, fortemente aceita nas décadas de 60 e 70 do século passado. Mesmo considerando a interdependência do mundo globalizado, parece que ainda permanecemos na rabeira do desenvolvimento internacional. Como sempre, continuamos atrelados à popa, não à proa.

Talvez seja essa preferência por ‘ficar na torcida’, o que parece excluir, ou pelo menos diminuir, a ênfase no planejamento e na atitude. O ministro deveria se lembrar de que não é torcedor, pelo menos enquanto ministro. Ele deve jogar. E bem, de preferência.

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