O ouvinte ideal


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Que fosse uma pessoa calma. Que essa calma houvesse sido polida mais pela ausência de felicidades que pela fartura delas; houvesse surdido das terras férteis de emoções ante as artes, esculpida pelo cinzel do sofrimento consciente e grato... Não a calma de um siamês, mas aquela que só identificamos no olhar, intenções e gestos das pessoas de bem.

Que fosse uma pessoa culta. E que sua cultura não descesse à insanidade da erudição, da empáfia, do pedantismo. Culta apenas por haver optado pelo conhecer não como meta, mas meio infindável de absorção de saberes, de amor ao conhecimento.

Que transcendesse aos bens materiais.

Que a modéstia lhe marcasse o caráter, mas que nem de longe transparecesse subserviência.

Que fosse assertiva. E que essa firmeza no falar se desse pela dicção de veludo. Firmeza e suavidade!

Que soubesse com maestria exercitar a arte de ouvir. Que por dons naturais decodificasse no primeiro enunciado as analogias mais sutis que a alma do interlocutor pudesse emitir.

Que por empatia penetrasse no mais profundo de meu sentimento e identificasse de igual modo minhas dores da alma e meu júbilo da vida.

Que por delicadeza não levasse em conta um pedaço de confusão mental sugerida no meu falar, mas centrasse toda sua atenção de espírito à essência do encadeamento das palavras. E por isso mesmo, não me apressasse nunca.

Que sua branda crítica, se acaso houvesse, revelasse o tom da reinvenção do cotidiano, nunca a destruição do já feito ou a desistência de mim.

Nenhuma pergunta, nenhum jogo de cena, nenhum forçar a ir por este ou aquele caminho. Que optasse pela fluência natural da conversa, com as devidas pausas e delicadezas, como só um suavíssimo canto gregoriano nos leva às alturas do pensamento limpo e puro.

Talvez assim eu lhe revelasse o que me vai na alma. E depois, como discípulo atento e grato, tornar-me-ia seu ouvinte na mesma amplidão... E em vez do debate tenso, no lugar do calor das palavras, a opção pelo diálogo sincopado, pensado, inteligente, raso de palavras, altíssimo de significados.

Só assim nossas almas se entrelaçariam, sem que necessariamente houvesse o viés tão comum e às vezes banal do amor, da simpatia ou da paixão.

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