Ciúme de homem


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Quando a conheceu, ele era viajante de calçados no pica-pau, modalidade onde o vendedor enchia uma velha Caravan com sapatos sem nota de fabriquetas de fundo de quintal e viajava fugindo das barreiras feitas pelo fisco enveredando pelas estradas vicinais. Foi numa pequena cidadezinha do sul de Minas Gerais. Ela era balconista e filha do dono de um pequeno comércio de roupas, calçados e armarinhos na praça principal do lugarejo, que é sempre JK ou Bias Fortes.

Bom de bico, em menos de três dias voltava com a Caravan vazia (beberrona de combustível fóssil, como gostam de dizer os ecologistas), vendia todo o estoque. Depois que a conheceu, o carro passou a voltar cheio, mas de amor, dizia para os colegas e amigos que freqüentavam o mesmo bar que ele no sábado, após uma partida de futebol no descampado rapadão da vila, onde ainda morava com os pais. Não demorou muito para começar a namorar a menina, a coisa foi ficando séria, conheceu a mãe, os irmãos, os tios, os avós dela.

Até que o inevitável casamento veio, ele arrumou uma casa alugada num dos conjuntos habitacionais da cidade e continuou sua vida de viajante. Ela se deslumbrou com a cidade grande, passou a freqüentar as lojas de grife, enquanto ele continuava ralando para vender a produção de sapatos das fabriquetas. Quanto mais ela se produzia e gastava com roupas, cabeleireiro, manicure e academia, mais ele não entendia aquela transformação, preferia aquela menina simples do interior que tinha conhecido em Minas.

Não tiveram filhos. Mas enquanto ele engordava com a pesada comida mineira de restaurantes perdidos, ela se mantinha impecável, com o mesmo peso de solteira e a pele mais lisa que napa de primeira. Sua beleza impressionava, ele começou a perceber os assobios dos desocupados do bairro e foi se enciumando. Começou a encasquetar com a academia, com as despesas com roupas e com a aparência, motivos banais para brigas nos finais de semana. Nas conversas nos botequins do bairro, um maldoso colega colocou algumas suspeitas sobre o comportamento dela. Foi a gota d’água para ele, que surtou com a possibilidade de receber um chapéu de vaca na cabeça. Corno, nunca.

Pela lista telefônica, achou um investigador, mas ele pedia muito. Teve uma ideia. Chamar a polícia para dar um flagrante de adultério, serviço grátis. Disse que ia viajar e não foi. Fez um telefonema anônimo que tinha visto um ladrão pular o muro de sua casa, onde a mulher estava. A polícia invadiu a casa, mas encontraram-na sozinha. Ele ficou olhando de longe, esperando. O que não esperava é que ela, na confusão, o tinha visto e sacou imediatamente o que havia ocorrido. Fez um BO, foi direto na delegacia fazer uma queixa contra o marido e mandou trocar as chaves de casa, deixando-o na rua. É por isso que dizem que ciúme de homem é pior que de mulher.

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