A chamada ‘primavera árabe’ parece estar fazendo escola nos EUA. Ainda sob a influência da inacabada crise econômica de 2008, vários grupos sociais resolveram ocupar a Praça Liberty Plaza, em Nova York, local onde os executivos das maiores instituições financeiras do mundo costumam sentar-se para almoçar.
Se no começo o movimento foi modesto e limitado, agora já começou a espalhar suas fagulhas por outras cidades do país. A adesão que era apenas simbólica, na forma de doações e mensagens de apoio, passou a traduzir-se em outras ocupações. Se vingar o efeito dominó, aumentando a participação da sociedade civil, a pressão para que haja mudanças na política econômica e no sistema político do país será grande, o que poderá influenciar esses mesmos protestos em outros países.
Apesar de não haver metas fixas ou bem definidas, segundo alguns de seus participantes o objetivo dos protestos é demonstrar que o sistema financeiro e político mundial está falido. Mesmo que seja uma afirmação ainda prematura ou exagerada, não pode ser totalmente desprezada, seja pela situação atual vivenciada pelos EUA e Europa como pelo próprio crescimento dos protestos.
O sonho americano, por exemplo, prometido a milhares de jovens por tantas gerações, já está se desvanecendo nas altas taxas de desemprego. Os jovens se formam já endividados pelos empréstimos estudantis que utilizaram para pagar seus cursos. Ao saírem da escola, não encontram emprego nem mais vislumbram uma luz no fim do túnel. Uma bomba relógio que pode estar se armando para explodir não se sabe quando.
Na Europa, as dificuldades enfrentadas por países como Grécia, Portugal, Irlanda e, sobretudo, Itália e Espanha levam certa instabilidade a todo o mundo globalizado. A preocupação é até bastante fundamentada. Como todos já sabem, não enfrentamos a crise de 2008, nem a vencemos. Na verdade, contrariamos todos os princípios antes afirmados pelo mercado. Dívidas não foram pagas e governos regularam mercados que deveriam ser auto-reguláveis. Não obstante, governos inventaram trilhões de dólares do dia para a noite, mostrando que o dinheiro, na verdade, é mais um instrumento político do que econômico.
Talvez essas manifestações espontâneas sejam uma cobrança tardia. Talvez tragam os questionamentos que não foram feitos durante a crise ou que pelo menos não duraram mais do que duas semanas, uma vez que todos se esforçaram para que tudo voltasse rapidamente ao mais próximo do que era antes da crise.
No poema O Homem, as Viagens, Drummond fala que depois de todos os planetas conquistados, restará ao homem a ‘difícil e dangerosíssima viagem de si a si mesmo’. À nação mais poderosa do planeta, talvez reste agora, depois de tantas conquistas, um encontro consigo mesma. Mas que o mundo globalizado também faça essa viagem. Dangerosíssima, mas necessária.
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