Há vários livros e estudos sobre o comportamento humano e a comunicação não verbal, ou seja, a comunicação estabelecida sem a palavra. Está surpreso?! Pois saiba que o corpo fala e além de falar é capaz de trair. A traição que me refiro reside no fato do falar não encontrar sintonia com os gestos. Exemplifico. Toca o telefone, é uma pessoa que, naquele momento você não gostaria ou poderia atender, mas você atende ao telefone. Por mais que você fale que está feliz (racionalmente) a sua voz, o tom, a velocidade, a intensidade e até a respiração pode revelar o oposto. Emoção, raiva, nojo, medo, surpresa e tristeza, vergonha, prazer, alívio, constrangimento, satisfação e contentamento são sinais que podem ser avaliados em vários graus, partindo desde os imperceptíveis até os mais acentuados. É evidente que a intensidade do sentimento facilita a correta interpretação.
A criança, por falta de maturidade, tem dificuldade para esconder esses sinais. Elas tendem a ser verdadeiras, embora mintam também com maestria. O adulto, por outro lado, em razão da maturidade, consegue, um pouco mais, controlar e evitar que o corpo traia a sua fala. Decifrar o comportamento humano não é tarefa fácil, mas pode ajudar a viver em comunidade e a alcançar sucesso profissional e pessoal.
Desde que entendi isso, tenho me dedicado ao estudo da comunicação não verbal e aproveito esse espaço para partilhar. O sentimento de tristeza revela desânimo, frustração a alguma pessoa ou situação. Olhe uma pessoa triste, as pálpebras superiores ficam um pouco caídas, do mesmo modo que os cantos da boca. A tristeza também se reflete na postura encurvada, a voz torna-se chorosa, podendo chegar até a voz infantil. A raiva, por outro lado, tem a finalidade de sinalizar para o agressor que ele deve interromper a sua atitude. Os olhos ficam abertos, a voz fortalece, a postura tornar-se ereta, as sobrancelhas aproximam-se do nariz e o rosto fica vermelho em decorrência da alteração dos batimentos cardíacos. O nojo causa repulsa, por isso, tende-se a virar a cabeça para o lado oposto, as narinas sobem provocando marcas de expressão no rosto e rugas no canto dos olhos aparecem. Os sentimentos de desprezo, raiva e ressentimento partem do mesmo ponto comum, mas há uma mudança quanto ao destinatário. O desprezo é direcionado a pessoa de nível mais baixo, a raiva a pessoa do mesmo nível enquanto que o ressentimento a pessoa de nível mais elevado.
Os gestos indicam quem somos! É fácil notar os comportamentos dos outros. Difícil é decifrar corretamente, principalmente os nossos gestos. É difícil analisar os membros da família, principalmente os filhos, porque eles tendem a repetir os nossos gestos, inclusive os que não gostamos. Temos dificuldade para aceitar isso, mas os filhos são nossos reflexos e, quando os vemos com comportamentos dos quais não gostamos, ficamos raivosos e acabamos por descontar neles, quando deveríamos olhar para nós e refletir: os outros podem ter a mesma vontade de fazer comigo o que quero fazer com meus filhos. Embora eu tenha utilizado essas análises no Tribunal do Júri, nas relações profissionais e pessoais, confesso que o meu filho de oito anos está me dando ‘aulas’. Não é fácil ser pai. O inconsciente do filho capta tudo, até aquilo que escondemos de nós mesmos, logo, todo esforço pessoal de superação, revela, no entanto, a existência de obstáculos e falhas, que são captadas e refletidas nos filhos. Então ao invés de tentar mudar o meu filho, devo mudar a mim mesmo. Será? Pense nisso!
Acir de Matos Gomes
Advogado e professor universitário
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