Viviane Araújo, 34 anos, se tornou uma “pedra no sapato” dos vereadores de Franca. Na última quinta-feira, ela estava entre os cerca de 300 manifestantes com nariz de palhaço, megafone, apitos e faixas que lotaram a Câmara para pressionar os parlamentares na votação que pretendia elevar de 15 para 23 o número de cadeiras na casa. O projeto acabou sendo derrubado por unanimidade. Mas, a militância de Viviane começou bem antes.
Ela tinha oito anos em abril de 1985 quando o presidente eleito Tancredo Neves morreu no Instituto do Coração em São Paulo. A garotinha francana ficou impressionada com a comoção causada no país e perguntou para a mãe por que tanta gente estava chorando. Queria saber por que aquele homem era tão importante. Foi sua primeira referência, o contato inicial com a política. Nunca mais Viviane deixou de se interessar pelo tema.
Em 1992, o movimento estudantil caras-pintadas tomou conta do País. Jovens e estudantes pintaram o rosto de verde e amarelo e organizaram passeatas pelo impeachment do então presidente Fernando Collor de Melo. Viviane tinha 15 anos e estudava na Escola Sudário Ferreira. Com o apoio de professores, ela e alguns colegas fizeram faixas e, claro, se pintaram e foram para o pátio gritar “fora Collor”.
Neste ano, no dia 7 de setembro, Viviane reuniu um grupo de 30 pessoas que se vestiu de preto, acendeu velas e foi para o Centro de Franca protestar contra a corrupção, o voto secreto e a volta da CPMF. A filha de 12 anos estava junto. As velas, ela diz, eram o sinal de esperança para um futuro melhor.
Viviane é formada em marketing e vendas pela Unifran. Fez pós-graduação em Gestão Estratégica de Negócios pela mesma universidade. Atuou como consultora de empresas pelo Sindifranca (Sindicato das Indústrias Calçadistas de Franca) e intermediou compras e vendas de calçados. Há três meses, se desligou do sindicato e passou a atuar só como vendedora.
Nas horas vagas, vai às sessões da Câmara e acompanha de perto o trabalho dos vereadores. Divulga as informações, sempre com muito senso crítico, em seu perfil no Facebook, rede social onde tem cerca de dois mil amigos. E foi justamente pela rede social que ela liderou campanhas para levar manifestantes ao plenário.
Na sessão do dia 29 de setembro, convocou os seguidores para protestarem contra o aumento de salários para vereadores e prefeito. Não mais do que dez pessoas compareceram à sessão. Viviane levou uma faixa sugerindo aos vereadores que fizessem greve, mas seu discurso caiu no vazio: todos os reajustes foram aprovados. O vereador Jépy Pereira (PSDB) foi à tribuna e tripudiou sobre a baixa adesão dos manifestantes. Acabou discutindo com Viviane, que registrou queixa contra o vereador na delegacia.
Na última quinta-feira, além de aumentar o número de vagas na Câmara, os vereadores queriam aprovar férias para eles em julho. Foram surpreendidos pela invasão de manifestantes e recuaram. “A sensação do francano, hoje, é de alma lavada mesmo. Foi, sem dúvida, através da mobilização que a votação aconteceu daquela maneira, por unanimidade”, diz Viviane. Confira nesta entrevista os detalhes da mobilização na Câmara e saiba se Viviane pretende se candidatar no ano que vem, como acreditam os vereadores.
Comércio - Você é casada, mãe de uma garota de 12 anos e tem seus compromissos profissionais. O que lhe move a passar horas na Câmara e comprar brigas que não são suas?
Viviane Araújo - É, justamente, este problema. Ninguém enxerga questões importantes como se fosse o problema de cada um. Todos enxergam as questões políticas do País, Estado ou cidade, como se alguém tivesse que resolver o problema. Sempre na terceira pessoa. Se cada um adotasse esta postura de fiscalizar, procurar conhecer mais o que está acontecendo nos poderes Executivo e Legislativo, penso que não estaríamos vendo tantas notícias alarmantes a respeito da nossa situação política.
Comércio - Como surgiu a ideia de divulgar a atuação da Câmara nas redes sociais?
Viviane Araújo - Sempre fui uma pessoa que tive um senso muito crítico a respeito de política. Quem ganhava meu voto podia ter certeza que, se fosse eleita, eu iria pegar no pé mesmo através de e-mail, cartas, enfim, sempre busquei me inteirar de como a pessoa que elegi estava cuidando do meu voto, me representando. A ideia surgiu da indignação que sinto todos os dias. Sempre acompanho jornais, rádios e revistas. É preciso agir para que as coisas possam mudar. Quando comecei a ir à Câmara, percebi que as pessoas não se inteiravam do que acontece ali. Passei a usar a rede social para divulgar as informações.
Comércio - Você disse que sempre cobra dos candidatos em quem vota. Em quem você votou nas últimas eleições?
Viviane Araújo - O meu candidato a presidente não foi eleito, o governador que votei não foi eleito e o vereador também não foi eleito.
Comércio - Quem são eles?
Viviane Araújo - Prefiro não revelar os nomes.
Comércio - Como avalia o trabalho da Câmara de Franca?
Viviane Araújo - O principal problema que tenho visto é que eles têm uma dificuldade muito grande de separar uma crítica pública do que seria uma crítica à sua vida privada. Falta maturidade política para lidar com isto. Seria primordial o vereador entender que ele tem de ser a voz da população na Câmara. Só que ele vota de acordo com o alinhamento político, não com o alinhamento da sociedade. Isto, é muito complicado.
Comércio - Com o acompanhamento crítico que faz, você criou animosidades com a maioria dos vereadores. Como é isso?
Viviane Araújo - Nunca fui amiga pessoal de nenhum vereador, nunca pedi nada a eles. Meu papel é de cidadã.
Comércio - O que você acha positivo no trabalho da Câmara?
Viviane Araújo - Existem muitos trabalhos positivos, mas, infelizmente, os negativos estão se sobrepondo.
Comércio - Qual foi o seu grau de frustração com o aumento de salários?
Viviane Araújo - Foi de 100%. A população deixou muito claro que era contra estes aumentos. Mesmo assim, prevaleceu o interesse deles. Então, eu pergunto: como eles estão representando a sociedade?
Comércio - Na sessão em que os salários foram aumentados, você tentou fazer uma mobilização, mas levou poucas pessoas à Câmara. Na última quinta-feira, dia em que foi derrotada a tentativa de ampliar o número de vagas, mais de 300 pessoas foram ao plenário. Por que desta vez o protesto deu certo?
Viviane Araújo - As pessoas estão muito cansadas de se sentirem impotentes diante de tanto descaso. Acho que juntou tudo isto e elas viram que havia esta possibilidade de reclamarem e reivindicarem seus direitos.
Comércio - Como foi feita a mobilização?
Viviane Araújo - Foi meio que contaminando. Fiz uma postagem sobre o aumento dos vereadores e chamei as responsabilidades para a população. Você não coloca um funcionário para trabalhar num lugar e volta lá daqui a quatro anos para colocar outro. É preciso acompanhar de perto. A sociedade não estava fazendo isto. Então, cobrei isso.
Comércio - Vereadores e pessoas próximas a eles disseram que a maior parte dos manifestantes não era de Franca, não eram eleitores. Quem eram os estudantes que foram à Câmara?
Viviane Araújo - São do campus da Unesp de Franca. Quando viram a mobilização, eles se prontificaram a ajudar a fazer a manifestação. Essa colocação de que as pessoas não eram de Franca, mais uma vez, mostra a imaturidade dos nossos representantes. É só os vereadores saírem às ruas e perguntarem o que as pessoas acham a respeito destes aumentos que eles estavam propondo.
Comércio - Como você avalia o grau de conscientização da população?
Viviane Araújo - Bem baixo, com um possível aumento a partir de agora. A sensação do francano, hoje, é de alma lavada mesmo. Foi, sem dúvida, através da mobilização que a votação aconteceu daquela maneira, por unanimidade. A carga de adrenalina, de energia e otimismo depois do protesto foi um divisor de água na cidade. Tenho certeza de que, daqui para a frente, será bem diferente.
Comércio - Ao final da votação, quando o aumento de vagas foi rejeitado, você se emocionou e começou a chorar. O que representaram aquelas lágrimas?
Viviane Araújo - Muita coisa, muita coisa, principalmente, o prazer de lutar e conseguir. A sensação de cumprir o seu dever enquanto cidadão. Ver aqueles jovens, os professores, as pessoas que saíram de casa, amigos que ligamos e chamamos, representa uma vitória muito grande, uma vitória da democracia. É sentir que a nossa voz prevaleceu.
Comércio - Você está envolvida em protestos desde pequena e é casada com um policial. Não teme ficar do lado oposto do marido durante uma manifestação?
Viviane Araújo - O manifesto na Câmara foi tranquilo. A arma que eu tenho é minha voz. Nunca tive o objetivo de entrar em confronto. Se eu me coloco numa situação em que a polícia tem de intervir dessa forma é porque, provavelmente, eu não estarei correta. Então, prefiro recuar.
Comércio - Você faz forte campanha contra os vereadores nas redes sociais. São frequentes os comentários de que está preparando sua campanha para 2012. Você vai disputar as eleições?
Viviane Araújo - Não faço oposição ferrenha em relação a eles. Coloco o que foi votado e minha percepção sobre o assunto. Todos precisam ter uma postura. Não fico em cima do muro. Não tenho filiação partidária, não sou candidata mas, com certeza, no próximo mandato, continuarei indo à Câmara para cobrar dos vereadores que eles representem a população da forma devida.
Comércio - O prazo de filiação terminou sexta-feira. Você se filiou?
Viviane Araújo - Não. Algumas pessoas, para criar um clima nas redes sociais, divulgaram que eu faria parte de algum partido. O prazo acabou e, felizmente, os comentários de que sou candidata vão acabar.
Comércio - Qual mensagem você gostaria de deixar?
Viviane Araújo - A população de Franca deu provas da força de sua voz, deu provas de que é possível mudar o rumo das coisas. Não precisamos, de forma alguma, ser apenas platéia e ficar assistindo ao que acontece a nossa volta. Podemos e devemos participar ativamente deste processo político. A situação de apatia, de inércia, é muito prejudicial. O povo brasileiro é muito guerreiro e não merece aceitar as coisas de cabeça baixa. Espero que o exemplo da mobilização de quinta-feira possa fazer parte de nossa agenda política. É possível, sim, basta, querer.
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