Dias atrás, comemorou-se o dia da árvore. Autoridades de todos os matizes e seus áulicos se esfalfaram sob o sol inclemente e a estiagem para plantar árvores, prática que deveria ser cotidiana e presente na educação de todos, mas que acaba se transformando em puro marketing nestes tempos onde as palavras ambiental e sustentabilidade estão presentes em todos os lugares, desde a venda de carros poluentes até lançamentos imobiliários despropositados. Plantam num dia, no resto do ano dedicam-se ao arranquio e à mutilação.
Árvores são fundamentais para o equilíbrio urbano. A impermeabilização do solo e o excessivo espaço asfaltado transformam as cidades em ilhas de calor, amenizadas pelas áreas verdes e pelas sombras decorrentes da vegetação. Quanto menos árvores na cidade, menor a qualidade de vida urbana.
Passo pelos fundos da antiga Casa da Agricultura e do cemitério da Saudade e verifico que meses após o plantio de meia dúzia de árvores no local o passeio não foi recuperado. Transito pela rua Santos Pereira e vejo funcionários da Prefeitura arrancando um dos últimos exemplares daquelas árvores gigantescas e frondosas que foram plantadas ali uns cinquenta anos atrás, certamente sob o aplauso dos dendroclastas que florescem no governo de Sidnei Rocha e fora dele.
Remanescem daquela espécie poucos exemplares, apenas aqueles dos fundos do IETC e alguns outros espécimes esparsos. Árvores imponentes como aquelas somente poderiam florescer na Cidade Nova, com seus passeios generosos, únicos na cidade.
Mais desagradável foi entrar na cidade pelo trevo do Jardim Paineiras, cujo nome decorre de uma árvore que ainda resiste às margens da rodovia Cândido Portinari para verificar que o frondoso cambuí, que provavelmente motivou o nome de outro bairro da cidade, desapareceu com as obras de pavimentação do próprio Jardim Cambuí. Lembro que, durante o governo de Gilmar Dominici, foi elaborado o projeto do prolongamento da avenida da Integração como um novo acesso à cidade pela rodovia Cândido Portinari.
No projeto de Gilmar havia sido desenhado um passeio central para ser arborizado, espaço para a ciclovia (prevista no Plano Cicloviário que o atual secretário da área afirmou desconhecer) e até uma modificação no traçado viário para a preservação no canteiro central de um imponente cambuí (lembra o Castelinho, clube que demoliu o castelinho existente, razão de sua denominação).
Ao executá-lo, o projeto da avenida foi modificado pelo atual governo sem pensar no futuro da cidade, pois a árvore sumiu e o canteiro central foi estreitado para uma dimensão mínima, que torna impossível arborizar e fazer a ciclovia, tão necessária para os bairros onde vive a população de baixa renda.
A avenida é um retrato acabado da visão elitista e insustentável do atual governo municipal quanto ao futuro da cidade, baseado exclusivamente no transporte pelo carro individual, sem nenhuma preocupação paisagística e ambiental.
Mauro Ferreira
Arquiteto e professor da FESP-UEMG
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