Às vezes, uma criança brincalhona aponta o rosto por detrás de minha alma. Desconfiada, desafia-me para uma corrida, aceito. Salto degraus, desço ladeiras, dobro esquinas; percebo, porém, que é tarde e rapidamente a brincadeira termina, porque as caminhadas do homem apequenaram o coração menino que, acelerado, sente imensa sede de ar.
Às vezes, uma criança desconfiada escala o muro da minha seriedade e, meio sem jeito, desafia-me para um salto. Aceito. Ordeno impulso enorme às pernas que ignoram minha autoridade, emprego força ímpar, endireitando o corpo que se rende, frágil, à curva dos anos, lanço as mãos ao céu a fim de tocar a lua, mas é tarde e meus dedos apenas resvalam o vácuo enegrecido, fazendo com que muitas estrelas zombem e riam do meu esforço.
É tarde, no entanto minha memória ainda permite que eu brinque de ciranda com algumas lembranças. De quando em quando, uma delas se cansa. Quieta, retira-se da brincadeira, cochilando a um canto. Em pouco tempo todas adormecem.
Não há correrias, não há saltos, não há ciranda. É muito tarde. Todos repousam.
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