Há diferença entre convencer e persuadir? Elas possuem mesmo sentido? Convencer e persuadir são figuras da retórica com sentidos diversos. Na persuasão o destinatário é levado a aceitar a idéia do outro e passa a agir de acordo com ela. Fumar é nocivo à saúde! Muitos estão convencidos disso, porém, muitos ainda não foram persuadidos a deixarem de fumar. No Tribunal do Júri, tanto o ministério público quanto o advogado, mais do que convencer os jurados sobre a verdade processual, tem que persuadi-los a votar de acordo com a tese que cada um sustentou.
Partindo dessa premissa, lembrei-me de frases latinas, cujos efeitos de sentidos são construídos e permanecem na nossa memória discursiva de tal forma que dela nos apropriamos e utilizamos no cotidiano sem dar conta disso. Muitas são como ditado popular. Omnis erat vitulus qui nunc fert cornua taurus (todo touro que hoje tem chifres, antes era bezerro); omnis doloris tempus fit medicus (o tempo é o médico de toda dor); omnis homo naturaliter scire desiderat (todo ser humano por natureza deseja adquirir conhecimento); e omnis comparatio odiosa (toda comparação é odiosa).
São frases verdadeiras? Sim? Então estamos convencidos, mas, se além de convencidos, delas nos apropriamos e utilizamos, já estamos persuadidos. O touro e o bezerro são metáforas que podem simbolizar tudo o que é grande hoje, um dia começou pequeno. O tempo é utilizado como remédio para acabar com a dor. Tempo não é remédio propriamente dito, mas sabemos os efeitos benefícios produzidos por ele para situações desagradáveis. Igualmente, gostamos de comparar pessoas, objetos, etc, no entanto, toda comparação é odiosa justamente porque as pessoas e objetos são diferentes. A comparação pode partir de premissa verossímil. Ao fazer comparações baseamo-nos em alguns pontos de análise, logo, comparar é inevitável, mas também é odiosa, inclusive porque o julgamento também deriva do ponto de vista do analista.
Comprar um carro de luxo mais antigo ou um popular zero quilometro? Qual é o melhor? Depende da finalidade, do custo benefício, valor de compra, valor de venda, gastos com manutenção, disponibilidade de peças, etc.
Compare uma Mercedez Bens ano 1995, com valor de mercado em vinte mil reais com um popular do mesmo valor. Podemos andar num carro de luxo, extremamente confortável, com vários acessórios, com segurança, por um preço de um carro popular; por outro lado, não deixaremos uma Mercedez em qualquer lugar, as peças são mais caras, a reposição de peças não é tão simples. Sendo a opção pela segurança e conforto, compramos a Mercedez; porém, se a opção for pela agilidade, facilidade de substituição de peças, o popular. Optando pela desvalorização, certamente comprar-se-á Mercedez pelo fato da depreciação já não mais existir, diferente de todo e qualquer carro zero, no qual, basta tirá-lo da agência que a desvalorização ocorre imediatamente.
O bom disso é saber o ser humano, por natureza, deseja adquirir conhecimento, essa aquisição exige tempo, dedicação, empenho (começa como bezerro para se tornar um touro), o tempo é capaz de curar os males da formação deficitária, embora comparação seja inevitável, ela é odiosa. Fazemos comparações sempre, porém, esquecemos que ela é odiosa. Queremos ser amados e respeitados em nossas escolhas, então, não devemos fazer e ser alvo de comparações? A resposta poderá indicar como esse artigo nos afetou: convenceu ou persuadiu?
Acir de Matos Gomes
Advogado e professor universitário
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