‘É preciso muito apoio para substituir o prazer que a droga dá’


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TESTEMUNHO - Nas palestras, Maníglia conta como a cocaína desestruturou sua vida e o fez perder a dignidade
TESTEMUNHO - Nas palestras, Maníglia conta como a cocaína desestruturou sua vida e o fez perder a dignidade

Quinze anos consumindo cocaína mudaram a vida de Maurício Maníglia. Tímido, o garoto que estudava na Escola Estadual “Homero Pacheco” descobriu cedo o mundo das drogas. A primeira “viagem” foi aos 14 anos. Apaixonado por uma colega de turma e sem coragem de tirá-la para dançar em um baile no antigo prédio da AEC no Centro, resolveu seguir o conselho dos amigos e tomar uma menta (espécie de licor). Não adiantou. Duas mentas e um Hi-fi (mistura de vodka com Fanta) depois, problema solucionado. “Me senti o mais corajoso, divertido e bonito dos homens. Era incrível”, lembra ele, que, bêbado, conseguiu dançar com a amada.

Com as bebidas alcóolicas, Maurício descobriu o remédio para sua timidez. “Não demorou para que quisesse experimentar outras coisas. A primeira vez que usei cocaína estava com 15 anos. Foi paixão à primeira vista.”

Para sustentar o vício, Maurício começou a trabalhar no escritório de uma fábrica de calçados. “Tinha meu salário e podia comprar o que quisesse. Nesta época, ainda conseguia usar cocaína só nos fins de semana. Ninguém desconfiava de nada.”

O uso se tornou mais intenso depois que Maurício se separou da primeira mulher, uma garota de 15 anos que havia engravidado. “Me mudei para Ribeirão Preto para fazer faculdade de Jornalismo e lá me enfurnei. Minha vida virou festas e drogas.” Dois anos depois, ele já tinha perdido o emprego e abandonado a faculdade. Acabou obrigado a voltar para Franca.

“Nem bem voltei e minha mãe morreu. Foi um baque. Depois da morte dela, minha vida desmoronou.” Ele vendeu o terreno, a casa e o carro que tinha comprado com o trabalho em escritórios. “Tudo por causa da cocaína. Nesta época, cheguei a gastar o equivalente hoje a R$ 150 por dia com a droga.”

A recuperação só veio depois que um primo de Maurício o convidou para um retiro espiritual. “O reencontro com Deus foi fundamental.” O tratamento no Narev trouxe de volta sua dignidade e as armas para lidar com o vício. “Ao sair, voltei a trabalhar no escritório de contabilidade da minha família, mas não estava feliz. Foi quando tive a ideia de ajudar outras pessoas.” Ele criou a Amafem (Associação Mão Amiga Feminina), para o atendimento a mulheres, em 2000. Hoje, a casa oferece 30 vagas mantidas pelo sistema público de saúde e pelas famílias das internas. Em dezembro do ano passado, inaugurou a Amamasc (Associação Mão Amiga Masculina).

Maurício já perdeu as contas do número de pessoas que ajudou a deixar o vício. Ele sonha agora em concluir a Faculdade de Psicologia e em montar uma casa de recuperação para menores. “Com a ajuda de Deus, vamos chegar lá.”

Comércio da Franca - Por 15 anos, você foi viciado em cocaína. Como conseguiu deixar esse vício?
Maurício Maniglia -
Foi no início de 1997. Estava no fundo do poço mesmo. Já tinha vendido um terreno, uma casa, meu carro. Tinha perdido tudo, minha dignidade, minha moral. Foi quando recebi um convite de um primo meu que participava de um grupo de oração para passar um fim de semana num retiro espiritual em Claraval. Resolvi aceitar e fui com a minha mulher, mas levei no bolso um papelote de cocaína. Chegamos na sexta-feira à noite na chácara. Eu achei tudo aquilo muito estranho e resolvi usar a droga. No sábado de manhã, usei de novo. À tarde, cheirei o pouco que havia restado. Quando me vi sem a droga, fiquei desesperado. Tentei voltar a Franca, mas meu primo, que já desconfiava do meu vício, disse que só poderia me trazer no domingo, depois do almoço. Meu desespero só aumentava. À noite, não conseguia dormir. Saí do quarto e fui andar. E andando comecei a questionar Deus. Perguntava por que ele fazia todo mundo feliz menos eu. E o desafiei. Se ele era mesmo poderoso, que se materializasse na minha frente e me ajudasse. Mas nada aconteceu. De manhã, no domingo, chegou uma missionária para rezar com a gente. Eu continuava desesperado para ir embora. Enquanto esperávamos o almoço, sentei num banco com a minha mulher e a missionária se aproximou de nós. Eu, num impulso, pedi a ela que rezasse por mim. Ela então me pegou pelo braço e fomos até a capela. Lá, ela pegou a Bíblia e me fez rezar com ela. No final, ela terminou dizendo que Deus estava me curando e me perdoando de um monte de coisas que eu tinha feito e nunca havia contado para ninguém. Me perguntava como aquela desconhecida podia saber da minha vida. Mas senti um prazer tão grande, um prazer que nunca tinha sentido. Esqueci das drogas e só voltei a usar novamente na quarta-feira seguinte. Meu corpo pedia. E começou tudo de novo, mais forte. Depois de cinco meses, eu estava acabado, magro, debilitado e decidi me dar uma chance. Um dia acordei e falei: ‘vou me internar’. Procurei o Narev (clínica de recuperação para homens) e lá passei nove meses. De lá para cá, nunca mais bebi ou me droguei.

Comércio - Em novembro, você completa 14 anos sem drogas. Livrar-se do vício é um desafio que muitos não conseguem vencer. Por que a recuperação é tão difícil?
Maurício -
São muitos fatores. Primeiro, porque a droga é muito atraente, muito prazerosa. É uma briga desumana. Não dá para simplesmente abandonar tudo. É preciso muito apoio para conseguir substituir o prazer proporcionado pelo entorpecente por outro sentimento. Neste caminho, é necessário que a pessoa se conscientize dos seus limites, que aprenda a valorizar outras coisas além das drogas, que aprenda a lidar com as frustrações. Também é importante que ela saiba lidar com o que chamamos de picos de fissuras, que são os dez, quinze minutos depois de uma situação muito desconfortável ou muito prazerosa em que a vontade de se drogar é enorme. A maioria dos drogadictos que aprendem a se controlar durante os picos tem grandes chances de conseguir lidar com a abstinência. Por isso é muito importante o autoconhecimento para que o indivíduo possa identificar e entender o que acontece com ele e com o seu corpo diante das situações de risco, como uma briga ou uma discussão. Eu ainda tenho picos de fissura, mesmo depois de quase 15 anos sem me drogar. Eu ainda sonho com as drogas até hoje, mas aprendi a me controlar.

Comércio - Há dez anos você cuida da recuperação de homens e mulheres viciados em drogas. Existe um perfil comum entre as pessoas que são dependentes químicas?
Maurício -
Não. É bobagem falar que a maioria das pessoas que usam drogas é pobre e vive nas ruas. A droga hoje é democrática. Está espalhada por toda a sociedade. Aqui atendemos ricos, pobres, gente que tem família estruturada, gente que nem conhece os pais, bonitos, feios. Todas classes sociais sofrem com este problema. A droga está disseminada.

Comércio - Você entrou para o mundo das drogas e convive com este universo há trinta anos. Qual a diferença entre o drogado daquela época e o que você atende hoje em suas duas clínicas?
Maurício -
Não vou nem tão longe. Vou falar do dependente de hoje e do de dez, quinze anos atrás. Antigamente, o usuário de drogas era mais tranquilo. A gente podia conversar com ele, pedia as coisas e ele fazia. Ele respeitava, nos ouvia. Ainda tinha alguma coisa dentro dele que fazia com que parasse e pedisse ajuda. O comportamento do dependente hoje é completamente diferente. Hoje o usuário de drogas é agressivo. Ele não escuta, não respeita, não aceita a doença. É difícil trabalhar com ele.

Comércio - A que você atribui essa mudança?
Maurício -
Hoje as drogas estão potencializadas. São muito mais fortes do que no passado. Para se ter uma ideia, um estudo mostrou que o percentual de THC (tetra hidro canabinol), que é o princípio ativo da maconha, no passado correspondia a 0,05% do que era vendido. Hoje a maconha consumida nas ruas tem 20% de THC. Com essa potencialização, apareceram as conformidades, que são doenças associadas ao uso constante de entorpecentes. Hoje, dificilmente uma pessoa é diagnosticada apenas com dependência química. Normalmente, ela acaba desenvolvendo também um transtorno de ansiedade, um transtorno bipolar, depressão e até esquizofrenia.

Comércio - Nestes dez anos tratando usuários de drogas, existe alguma história de recuperação que o marcou?
Maurício -
Claro. Muitas pessoas que hoje trabalham aqui conosco passaram pelo tratamento e hoje refizeram suas vidas, recuperaram a confiança da família e a dignidade. Mas uma história que realmente me emocionou foi a de uma jovem (ele preferiu não revelar o nome) que chegou aqui para se internar e depois de um mês descobriu que estava grávida. Ficou desesperada, quis sair e abortar, mas nós acabamos convencendo-a a ficar. Dois meses depois, no entanto, ela saiu. Usou drogas e comprou uma passagem para Goiânia, mas na rodoviária desistiu de embarcar e voltou para cá. Nós a recebemos. Ela ficou mais nove meses se tratando, teve a criança. Ao sair, ela assumiu o filho e os dois vivem superbem hoje. O menino é uma graça, vive sorrindo (enche os olhos de lágrimas). É por histórias assim que sinto que meu trabalho vale a pena.

Comércio - Nas suas duas clínicas, a internação é voluntária. O usuário precisa aceitar e querer se tratar para estar na Amafem ou na Amamasc. Neste ano, a Prefeitura do Rio de Janeiro implantou um programa de tratamento compulsório de menores viciados em drogas. Como você vê essa iniciativa?
Maurício Maniglia -
Eu sou favorável, mas acho que só recolher o usuário não resolve porque, depois que ele se recuperar, terá que voltar para o mesmo lar desestruturado de antes, onde ele provavelmente era agredido e via seus pais se drogando. Para que esse programa realmente produza resultados, é necessário cuidar também da família.

Comércio - E qual sua opinião sobre a internação involuntária em clínicas particulares?
Maurício -
Acho que hoje em dia há sim casos em que a internação precisa ser involuntária porque o doente não tem ideia de que é viciado e de que precisa de ajuda. Às vezes, ele até chega a buscar tratamento, mas não consegue ficar na clínica. Só acho que a família deve analisar bem o tipo de tratamento oferecido porque existem muitas clinicas de recuperação que são péssimas.

Comércio - Há uma discussão em nível nacional para descriminalizar o uso e a comercialização da maconha. Qual a sua opinião a respeito?
Maurício Maniglia -
Sou contra. A maconha é um entorpecente. Ela causa perda da memória e, a longo prazo, pode causar esquizofrenia, além de ser a porta de entrada para drogas mais pesadas.

Comércio - A gente conversou muito sobre o tratamento de quem já se viciou em drogas. E a prevenção?
Maurício Maniglia -
A melhor prevenção às drogas é a informação. É você mostrar para a criança, para o adolescente as consequências que o uso de drogas traz. Não podemos negar que usar qualquer tipo de entorpecente é bom, é muito bom. Se não fosse assim, ninguém usaria. O problema está nas consequências. Nas palestras que faço, eu mostro como as drogas prejudicaram minha vida, mostro tudo o que perdi com o vício. Perdi minha dignidade, minha identidade, a confiança das pessoas que eu amava, a minha moral. Não há nada de legal nisso. A postura dos pais em casa também faz diferença. Não adianta pedir para o filho não beber se ele bebe todos os dias.  

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