Batalha pela vida


| Tempo de leitura: 3 min

É consenso entre os gestores da saúde pública de que urge, em todo o Brasil, um programa integrado de assistência à dependência química.

No Estado de São Paulo foram criados, nos últimos anos, cerca de 400 leitos de internação de dependentes em álcool, crack e outras drogas, como alternativa terapêutica complementar ao acompanhamento ambulatorial realizado nos Caps (Centros de Atenção Psicossocial). A proposta do governo estadual é dobrar este número até 2012.

Uma questão particular e especialmente preocupante nesta área é o início cada vez mais precoce do consumo de bebidas alcoólicas entre crianças em adolescentes. Levantamento da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo aponta que 80% dos pacientes em tratamento de alcoolismo no Cratod (Centro de Referência em Tratamento de Álcool, Tabaco e outras Drogas), na capital paulista, deram o primeiro gole antes dos 18 anos, parte deles muito jovens, com 11 ou 12 anos. O consumo de álcool, tolerado na sociedade, é na verdade uma bomba relógio com efeito retardado.

Parte das pessoas que começam a beber na infância e na juventude torna-se, mais tarde, abusadora dessas substâncias. Daí para a dependência química é um passo.

Trata-se de uma verdadeira “batalha pela vida” que o Estado de São Paulo se propõe a enfrentar por meio do recém-lançado Plano Estadual de Combate ao Álcool na Infância e Adolescência, que conta com o apoio do Ministério Público de São Paulo e representantes da indústria, bares, supermercados e restaurantes.

O programa, que é intersecretarial, prevê ações para tratamento, educação e fiscalização do consumo indevido de álcool por adolescentes em todo o Estado, além da intensificação das blitze da polícia para flagrar e punir motoristas alcoolizados.

Acaba de ser aprovado na Assembleia Legislativa do Estado um projeto de lei encaminhado pelo governador Geraldo Alckmin que endurece de forma exemplar a punição a estabelecimentos que ofereçam, vendam ou permitam o consumo de bebidas alcoólicas por adolescentes ou crianças.

Além de prever multas mais altas, interdição e até a cassação do registro dos estabelecimentos que descumprirem a legislação, o projeto toca em um ponto essencial, obrigando os comerciantes a exigirem documento de identificação para realizar a venda ou deixar que bebidas alcoólicas sejam consumidas no local.

A punição, portanto, se estende ao consumo, e não apenas à venda de bebidas alcoólicas.

Mesmo que as origens do problema ultrapassem a barreira da área de saúde pública, a expansão da rede de assistência médica é fundamental para tratar aqueles que, lá atrás, iniciaram de forma “recreativa” o consumo de bebidas alcoólicas, depois passaram a abusar dessas substâncias e criaram dependência crônica.

A proposta das novas clínicas de reabilitação para dependentes químicos é que, além de medicação específica, os pacientes em tratamento recebam atendimento psicológico individual e coletivo e participem de atividades físicas e esportivas, além de realizar terapias ocupacionais, como oficinas de pintura, artesanato e expressão corporal, entre outras.

É importante que todos, tanto a sociedade quanto os profissionais da saúde, se unam para encarar essa batalha pela vida.

Não há espaço para dúvidas ou indiferenças. O momento é de enfrentar o inimigo, unindo forças e trabalhando em prol do bem comum.

Giovanni Guido Cerri
Médico, professor de Medicina e secretário da Saúde do Estado de São Paulo

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários