Até quando?


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Somos, ainda, um País muito jovem, de um povo bom e risonho mas inexperiente, incapaz de viver o potencial e o volume de seu grito

Somos um povo fácil de ser conduzido. Adoramos discursos bonitos e nos encantamos com tapinhas nas costas, mesmo que seja a cada quatro anos. Admiramos os gozadores – elegemos Tiririca e o fizemos porque ele zombou de nós e a maioria achou uma maravilha. Nossos políticos “caipiras” não são piores ou melhores. Também nos presenteiam com incontáveis “pérolas” capazes de fazer enrubescer quem tem vergonha na cara, mas nós os perdoamos. Reelegemos e escolhemos novos como em qualquer outro lugar, por amizade, proximidade ou qualquer um, apenas para nos ver livres da obrigação de votar.

Os “eleitos” revelam-se. Quem prova do poder, gosta. Farão o que for possível para garantirem-se trabalhando pouco e ganhando (muito) bem. De quando em quando, nomes para ruas, datas para comemorar isso e aquilo no calendário da cidade. E dá-lhe reuniões a portas fechadas e decisões na calada da noite Não temos uma Transparência Municipal, que mensure, fiel e eficientemente, a vida legislativa daqueles que, por nossa condescendência, tornamos nossos representantes.

Por isso mesmo, persistem, continuam, vencendo-nos pelo cansaço ou praticando estratégias garantidas pela calada da noite. Há exemplos e são conhecidos. A memória popular é curta e praticamente inexiste. Por força do perfil de brasilidade ou obediência à lei do menor esforço, achamos que está tudo certo.

Somos a piada principal deles. Riem-se nos bastidores. Não é folclore o caso dos que se lavam com álcool depois de fazerem campanha na rua, “no meio do povo”. Conheço políticos que se dedicaram – ferozmente – a conquistarem cadeiras só para ter acesso a dinheiro fácil, farto e constante, e não apenas dos salários. Tenho tristes conhecimentos de ocasiões nas quais falam sobre a “difícil” vida dos “representantes políticos do povo”: “nenhuma atividade é tão fácil e blindada como essa”; “a gente faz que trabalha e, no fim do mês, lá está o nosso”; e “quem mais, além de nós, pode legislar sobre salários?!”.O povo que se exploda!

Somos, aqui fora e na maioria, bando de idiotas incapaz de juntar forças para fazer diferença. Somos assim por falta de cultura ou por ruindade, mesmo. Anteontem, um sujeito quis me convencer a deixar para lá a indignação que alimentei nas últimas semanas desde que a Câmara sinalizou aumentos de salário na ordem de 27% para vereadores, 53% para o prefeito e similares para vice-prefeito e secretários. O cara não economizou incivilidade: “não sei porque você se preocupa tanto discutindo salário de vereador. Afinal, isso não tem nada a ver comigo”.

As pessoas pensam mesmo assim, como ele. Acho que eu também sou daqueles idiotas que acham que podem algo, isoladamente. Quero mudar as pessoas, exigir delas um mínimo de cidadania, fazer com que se organizem para gritar por escola, saúde e educação de qualidade; convencê-las de que é preciso testemunhar contra bandidos e colarinhos brancos que se reafirmam na impunidade; para que deixem de sorrir de inveja quando sabem de alguém que enriqueceu por facilitar uma falcatrua, ou por mais uma centena de merdas que fazem deste meu País a terra de Gerson, a pátria dos que se orgulham em ser e pensar pequeno, distante do que é são ou do que dá trabalho para ser feito.

Temos em nossa Câmara Municipal, o que escolhemos e merecemos. Há raríssimas e honrosas exceções mas, anteontem, como um todo, depois de mais uma aula de despreocupação total com as oito horas de trabalho/dia insano que um pai de família é obrigado a ralar para levar para casa o que resta de um salário mínimo; nossos vereadores legislaram novamente em causa própria e garantiram R$ 6,1 mil de salário para trabalhar 1 dia por semana em plenário e, no mais, continuarem dedicados às suas respectivas funções fora da Câmara, estas sim, suas ocupações principais.

Somos, como afirmo, responsáveis, e não adianta chorar, a não ser que seja um choro choro coletivo, com bandeiras, passeatas, grito hoje surdo, liberado em alto volume. Talvez um dia, quando os homens de bem resolverem fazer diferença, isso mude. Ai, será a hora de atrair os idiotas renitentes e demonstrar que cidadania é exposição corajosa, caras não necessariamente pintadas, mas mostradas em toda a sua indignação. Mudanças, mesmo traumáticas, começam com um pequeno e corajoso passo...

O POVO NÃO FOI
Pensava-se que o plenário da Câmara estaria lotado. Centenas de internautas manifestaram opiniões no portal GCN.net durante a semana, indignados com o pacotaço de aumentos proposto pelos vereadores. Esperava-se a presença dos descontentes à sessão, para fazer valer a contrariedade pública. Não aconteceu nada. As pessoas ficaram em casa. Quem foi, teve que suportar chacota: cadê a mobilização? O dinheiro público será, de novo, direcionado ao bolso dos políticos. Com a nossa benção...

ESTRATÉGIAS? E PERGUNTAS...
Eis a turma do “não ao pacote”: Graciela Ambrósio, Paulo Afonso, Silas Cuba (o PT forçou seus vereadores a essa decisão), Laércinho. E a do “sim”: Jépy Pereira, Vanderlei Tristão, Dr. Joaquim Ribeiro, Oscar Mércury, Pastor Otávio, Rui Engrácia Caluz. Os vereadores Josivaldo Bahia, Marcelo Valim e Walter Gomes eximiram-se de votar nas emendas e no projeto de resolução que garantiu o aumento de salários. Está nos relatórios. O Regimento da Câmara diz, no artigo 197, que “o vereador presente não poderá excusar-se de votar, (...) devendo abster-se quando tiver interesse pessoal na deliberação (...)”. O 198 determina que “não será permitido ao vereador abandonar o plenário no curso da votação, salvo se acometido de mal súbito, (...)”. Se não votaram nos três momentos, podem ser considerados presentes à reunião? Se alguém contestar, Bahia, Valim e Walter terão direito a receberem pela sessão? Paulo Zamikovsky estava em viagem. O presidente Marco Garcia só votaria se houvesse necessidade de desempate.

Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br

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