Os pequenos rodízios da maca feriam o silêncio dos longos corredores do hospital com a celeridade envolvida com emergências. Ladeando o trajeto de esperanças, os anjos brancos em circunspecção denotavam cuidados com o ser envolto pela igual alvura dos lençóis.
Se um séquito silencioso guarnecia uma caminhada, a confiança de sucesso invadia a expectativa dos instrumentistas da vida cuja sabedoria suprema não haveria de faltar nas iminentes decisões e ações a serem encetadas.
Enquanto, lentamente, o atrito dos rodízios da maca, o vozerio confuso, as frases distantes da enfermagem se misturavam no crescente apagão, levando-me à inconsciência de não poder registrar a força poderosa do pensamento positivo no alto dos desígnios de Deus, passados por amigos, aos de fé, aos irmãos na esperança, aos de boa vontade na pratica do ‘amai-vos uns ao outros’, me adentrava ao nada.
Embarcado no túnel da inércia, afogado pelos sentidos da vida – olfato, visão, audição, paladar e tato –, impossível aproximarem-se da descoberta dos mistérios da existência. Na evaporada energia de complemento da matéria ali jazida, parecia finito um ciclo, para muitos considerados inextinguível antes do atingir o crescimento na perfeição de poder habitar o paraíso, etapa final na consecução dos desígnios conferidos ao espírito.
Decorrido incontrolado lapso de tempo, iniciou-se o processo de volta à vida graças à sabedoria divina orientando amor e arte da habilidade humana de consagração ao ato de eleger a vida, mais lídimo bem da criação ao qual o homem deve aferrar-se com afeiçoada ternura. Já se podiam ler fisionomias deixando transparecer contentamento no interior dos trajes brancos cujo carinho e dedicação em sua lida, tem sido empenho e amor ao ressurgir da vida.
A metamorfose, ainda atrelada ao meu ser inerte, alimenta, com lentidão, sinais vivos de retorno à consciência conturbada na escuridão, se agigantando através de sonhos em desafino incorrigível ao interligar fatos e pessoas em que não se pode reconhecer qualquer identidade. São fatos e pessoas passando por sua releitura, penalizando com martírio e suplício a opressão do túnel negando passagem ou esperança as suas expectativas.
Imagine a volta, fazendo dela motivo suficiente de reflexão ao homem de boa vontade. Use-a como seta indicativa de inquestionáveis caminhos de quem pretenda o limiar de uma vida feliz. O amar conquista o amor, o respeito entre pessoas disciplina o mundo, o exausto riso do ancião afirma a luz do futuro da criança. Atenda ao chamamento da solidariedade abrindo em sorriso, espaço que aproxime seu irmão. Valorize a vida no momento em que o desalento for maior que a razão.
Ouça e coloque doçura e amor em sua mensagem como legítimo voluntário do CVV. Acudir ao infortúnio alheio pode iluminar sua passagem.
Garcia Netto
Jornalista
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