Como dizia o poeta, há muita distância entre a intenção e o gesto. Geralmente, começamos as mudanças pelo discurso. Talvez para não assustar, nem aos outros nem a nós mesmos. As palavras, apesar de fortes, são sempre mais palatáveis que a prática cotidiana. Em certos momentos, inclusive, concorrem para adiá-la, ou escondê-la.
Se isso acontece normalmente em nosso cotidiano, imagine no mundo da política e do poder, em que as interpretações seguem mais os interesses particulares do que a racionalidade de qualquer linguagem que lhe sirva como suporte. Nesse mundo, muitas vezes, as mudanças são propostas apenas para que nada mude. Os significados das ações, geralmente, assumem conotações até mesmo opostas ao que realmente deveriam significar.
Mas isso não pressupõe uma contradição, ao contrário, está mais para estratégia. Em certos momentos é mais interessante proferir palavras que propositadamente nada dizem. Com isso, esses discursos acabam encerrando-se em si mesmos. Grandiloquentes, porém ineficazes.
A criação da CEI (Comissão Especial de Inquérito) para investigar o transporte público de passageiros, aprovada na semana passada pela Câmara Municipal, parece ser um desses casos. É difícil entender o que será investigado, uma vez que os objetos da investigação já são de notório conhecimento de toda a população. Ônibus lotados, falta de funcionários para atendimento na renovação do cartão Passe-Fácil já são fatos questionados pela população e repercutidos por esse jornal há bastante tempo. Nada que uma rápida investigação não conseguisse constatar ou refutar em pouquíssimo tempo.
Além disso, a CEE (Comissão Especial de Estudos), comissão que antecedia a CEI, já está desde o começo do ano concentrada nessas questões. Nada mais nada menos, foram 9 meses para se avaliar os serviços da concessionária e apurar as denúncias levantadas, um tempo exagerado para não se chegar a lugar nenhum e, pior, para ampliá-lo.
A explicação dos vereadores para essa morosidade é que a CEE apenas convida aqueles que precisam ser ouvidos, mas não pode intimá-los ou requerer qualquer documento. Para corrigir esses desvios e ‘acelerar’ esse processo, continuam os vereadores, é que se resolveu criar CEI.
Mas, então, para que servia essa CEE? Será que foram precisos 9 meses para se perceber esse empecilho? E o que garantirá o sucesso dos trabalhos da CEI? Para se certificar do descumprimento do contrato, por exemplo, não seria necessária uma comissão, mas apenas um olhar jurídico mais acurado. Se as passagens estavam congeladas por 2 anos, é só fazer contas, porque de resto todos sabem que elas já foram majoradas duas ou três vezes.
O problema talvez esteja justamente nessa distância entre o discurso e a prática. Fala-se uma coisa e busca-se outra. Em certo sentido, permite pensar que quanto mais comissões, mais tempo decorrido e menos ações efetivas.
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