José Marques: o professor que formou gerações de músicos


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PURA PAIXÃO - José Marques da Silva toca violão em uma das salas da escola de música que leva seu nome, no Centro
PURA PAIXÃO - José Marques da Silva toca violão em uma das salas da escola de música que leva seu nome, no Centro

O rádio ligado à bateria ficava sobre a mesa da cozinha da fazenda. José Marques da Silva, 72, gostava de se sentar bem ao lado do aparelho para ouvir músicas. Sempre se entusiasmava. Era ainda uma criança quando se apaixonou pelas canções do violinista Dilermano Reis. Ainda se emociona ao relembrar as melodias de Noite de lua e Abismo de rosas. Com apenas 11 anos, emprestou o vilão de um dos seus quatro irmãos e foi aprendendo a dedilhar as cordas sozinho.

“Aprendi a tocar de ouvido”, diz o professor que formou gerações de músicos em Franca em seus quase 50 anos de carreira. Entre seus alunos famosos estão Diego Figueiredo, que conquistou carreira internacional, e Ronaldo Sabino.

Apaixonado por violão, José Marques correu atrás do sonho de se tornar músico. Filho de lavradores, começou a estudar música em Franca aos 17 anos. Mas ele queria mais e, aos 21, decidiu viajar 800 quilômetros de ônibus (ida e volta) aos domingos para ter aulas em São Paulo com o concertista Isaías Sávio.

Como só tinha dinheiro para viajar uma vez por mês, José Marques demorou dez anos para se formar no Conservatório de Música de São Paulo.

Para comprar o próprio violão, ele vendeu uma vaca que o pai havia lhe dado ainda bezerra e conseguiu o equivalente a R$ 500. Com o instrumento em casa, estudava todos os dias, de madrugada e à noite, nas horas em que não estava trabalhando na lavoura de café e batata.

Na década de 60, ele se mudou para Franca porque conseguiu emprego com registro em carteira como sapateiro. Três anos depois, começou a dar aulas de música para os colegas de trabalho. Ensinava em casa à noite e aos fins de semana. Em 1965, fez um acordo com o patrão: ficaria afastado da fábrica durante um mês para trabalhar com a música e, se não tivesse sorte, voltaria a costurar mocassins. Nunca mais voltou.

ESCOLA
Em 1978, o professor montou a Escola de Música José Marques, em atividade até hoje. Depois de ocupar dois endereços no Centro em imóveis alugados, ele construiu, em 1986, a escola ao lado da casa própria. O endereço ainda é o mesmo: Rua Monsenhor Rosa, 1.370, no Centro.

No auge, a escola chegou a ter 230 alunos. Hoje está com apenas 30. O professor diz que “não tem o mesmo pique de antes” e a concorrência aumentou. Ele ainda trava uma batalha com os problemas de saúde. Tem glaucoma, uma doença que altera a pressão nos olhos, perdeu a visão esquerda há oito anos e só tem 4% da direita. Só vê vultos.

A doença foi descoberta há duas décadas. Desde então, ele iniciou um tratamento particular. Fez cinco cirurgias de transplante de córnea, catarata e de colocação de uma válvula para controlar a pressão no olho. Essa última foi realizada há três meses, mas não deu resultado e, no próximo mês, ele terá de passar por nova operação.

Sem enxergar, não pode mais dirigir, só circula pela rua na companhia da esposa e não consegue mais aprender novas músicas tiradas da internet.

DÍVIDAS
Os tratamentos geraram dívidas. José Marques calcula que esteja devendo R$ 50 mil entre as cirurgias, empréstimos, impostos e outras contas. Até tentou colocar a casa à venda, mas foi convencido por ex-alunos a manter o imóvel.

O sonho de José Marques, aos 72 anos, é voltar a enxergar, quitar as dívidas e continuar dando aulas. “Quando toco passa tanta coisa na minha cabeça que é difícil descrever. Penso no sacrifício que passei e na satisfação de ter conseguido alguma coisa. Não quero parar.”

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