Em 1972, Agostinho Galgani da Silva, diretor da Rádio Imperador, não pensou duas vezes: levou para sua emissora e de uma só vez, todos os líderes do rádio AM da época
Eram as referências de todos os horários nobres do início daquela década: José Rasteiro Filho, comunicador sertanejo das madrugadas e fins de tarde; Paulo Roberto Verzola, dono de programas resolutivos para cadeirantes e os menos providos pela sorte; Valdes Rodrigues, o rei dos programas musicais e Patrícia, a toda-poderosa cronista social da cidade. Foi uma revolução. Nunca, antes, o rádio AM tinha passado por um turbilhão de troca de prefixos quanto o causado por Galgani. A Imperador deixava de ser emissora chamada “padrão” movida a música, notícia e hora certa, repleta de vozes fortes, graves, próprias também do rádio de então – estiveram lá Alfredo Carlos Alves, voz padrão da Fundação Padre Anchieta até hoje; José Ricardo Pucci, vereador e empresário; Frank Luís, Willie Mayer e Carlos Grego, radialistas escolados em algumas das melhores emissoras da época, além de Wadi Salomão e um iniciante Luiz Neto, surgidos de testes para busca de novos locutores – e optava pela programação eclética, capaz de proporcionar lucros mais adequados ao novo prefixo da cidade.
Não deu outra. As pesquisas cravaram a rádio na liderança. Alguns dos radialistas “padrão”, ficaram. Fui um. Assumi programa aos domingos. Início de trabalho de focas dentre feras é assim mesmo. Aprendizado duro.
Um certo dia, Verzola, gerente comercial, me chamou. Foi rápido: “Luiz, Valdes vai parar por uns tempos. Você assume o programa da tarde, com salário melhor e registro em carteira”. Criei o “Show de Comunicação” e foi com ele que conquistei minha mulher, Lourdinha, mas esta é uma história para contar outra hora. Carlos Grego apresentava seu Bom Dia Cidade pela manhã, antes de Verzola ir ao ar. Depois, voltava, para apresentar, com Patrícia, o Revista Social. Meu programa vinha após o deles. Encontrávamos, eu e ela, ocasionalmente, pelos corredores da rádio.
Foi Grego quem nos aproximou. Disse-me que ia cuidar só de seu programa (com a nova fase recebia, em média, 2 mil cartinhas de ouvintes por semana, fenômeno da comunicação radiofônica do interior.) e que Patrícia tinha perguntado a ele sobre “quem” colocar a seu lado, diariamente. “Recomendei você”.
Patrícia achegou-se em um intervalo de seu programa e foi direta: “Luiz, quero que você venha trabalhar comigo em meu programa e também, no Comércio da Franca”. Honrado, aceitei. Iniciamos o que foi uma difícil convivência. De repente, vi-me no centro da sociedade francana e regional. Tudo girava em torno de Patrícia e sua capacidade de concentrar atenções e determinar rumos. Sofremos, ambos, ate que nossos estilos dessem liga. Aprendemos, mesmo que em meio a guerras permanentes. O que nos mantinha próximos – ela e eu confidenciávamos a amigos, mas não um ao outro – era a competência. Ela e eu somos Capricórnio, nossas ranhetagens e enguiços se tornaram conhecidos e alguns multiplicaram-se via rádio mesmo. A gente se esquecia do microfone e, bicudos, dizíamos o que pensávamos.
Foram 12 anos de convivência. Respondi por suas páginas no Comércio. Produzi seu rádio. Participei, como produtor, sempre ao lado dela, de incontáveis Noites E.P., que também apresentei. Convivi, com ela, vários dos períodos mais duros de sua vida, a perda do marido Américo, especialmente. Depois, mais distante, acompanhei seu sofrimento pelas perdas do pai, da mãe, da irmã, de alguns de seus amigos mais próximos e, suprema dor, dos dois filhos. Logo ela, que precisava continuar sorrindo.
Patrícia me foi, a exemplo de Carlos Grego e do jornal Comércio da Franca, as mais relevantes escolas de comunicação e de vida social e profissional. Tornou-se madrinha de meu casamento com Lourdinha e de meu filho Luís Cassiano, porque foi ela a dar força à minha mulher na ocasião do nascimento do garoto enquanto eu, minha mãe, pai e até o obstetra José Bernardes de Pádua, estávamos todos em viagem.
Nossos caminhos profissionais não se cruzaram mais, até agora. Fiz o que pude para ajudá-la a voltar ao Comércio, seu ninho de nascimento. Corrêa Neves Júnior tornou possível. Ela reestreou neste GCN no último domingo assinando sua coluna neste jornal e, hoje, às 10 horas, volta também ao rádio. Patrícia é um exemplo de trabalho, determinação e foco. Quanto a seu programa – muitos já me perguntaram se eu reviveria a parceria –, eu já disse não. Embora ambos sejamos hoje mais experientes e, certamente, menos arrogantes, prefiro apoiar, cá de fora, as atividades dela. Certamente, o vigor que readquiriu fará bem a ela e, por consequência a esta cidade à qual ela sempre dedicou tudo o que fez. Até seus pertences mais queridos. Bem-vinda, Patrícia. Rosas vermelhas para uma dama triste.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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