Em meio à criação de uma CEI (Comissão Especial de Inquérito) na Câmara para investigar a concessão do transporte público em Franca, a empresa São José promove a troca dos cartões Passe-Fácil e, com a inovação tecnológica do sistema, anuncia mudanças no passe estudantil. O novo cartão limita e bloqueia automaticamente o seu uso caso o estudante esteja fora do turno estabelecido na declaração fornecida pela escola, obrigando o estudante a pagar o valor integral da passagem. A mudança afeta diretamente 5,1 mil estudantes. A concessionária alega que apenas passará a cumprir o decreto municipal que regulamenta o desconto concedido a estudantes.
Segundo o diretor administrativo da empresa, Delismar Rodrigues da Silva, a nova regra tem como objetivo evitar que o cartão seja utilizado para outros fins que não os estudos. “A nossa intenção é disciplinar o uso do Passe-Fácil. Em alguns casos, o cartão era usado pelo estudante de manhã e pelo pai à tarde. Eles fraudavam o sistema, agora vamos ter um controle maior sobre isso.” Ele diz que essas medidas “apenas” cumprem o decreto municipal que regulamenta o desconto sobre a tarifa de transporte urbano a estudantes.
Três períodos foram estabelecidos para atender aos estudantes: manhã, das 5 horas até 14 horas; tarde, das 11h30 às 19h30; e noite, das 17 horas à meia-noite. Antes, o cartão era liberado nos períodos diurno e vespertino. A passagem custa hoje R$ 2,65 e o aluno ganha 50% de desconto. Segundo Silva, o limite de créditos é liberado de acordo com a necessidade de cada usuário comprovada por meio de declaração da escola. Por exemplo, se ele estuda de manhã, seu cartão vale apenas para o primeiro horário. Nos outros períodos estará bloqueado. Se ele tiver que retornar à escola com frequência à tarde, para fazer educação física, por exemplo, deve apresentar uma declaração da escola à empresa para liberar o cartão.
Esse é o caso de Viviane Olmo, 31, que cursa enfermagem na Etec “Dr. Júlio Cardoso” e utiliza o cartão diariamente. “Praticamente todas as tardes, algumas noites e nos fins de semana tenho atividades extra-curriculares, como laboratório e participação em eventos. Essa notícia me pegou de surpresa. Vou providenciar na escola uma declaração para não ter de pagar a passagem, pois hoje não tenho condição.”
A dona de casa Rosemary Pelizaro já fez as contas de quanto vai gastar com o transporte da filha devido à mudança no sistema. Ana Laura Pelizaro Silva, 13, estuda de manhã no Sesi da Estação, mas tem atividades extra-curriculares praticamente durante todas as tardes no Sesi do bairro Santa Cruz e no Colégio Champagnat. “O problema é que algumas atividades são irregulares. Nas últimas semanas ela treinou basquete para um campeonato interno, por exemplo. Com o novo cartão, ela perde totalmente a mobilidade e, segundo as minhas contas, vou gastar mais de R$ 80 por mês com passagem.”
INVESTIGAÇÃO
No início do ano, a Câmara Municipal de Franca criou uma Comissão Especial de Estudos para avaliar a prestação do serviço de transporte público na cidade e apontou várias irregularidades. Na sessão da última quinta-feira, os vereadores aprovaram a criação de uma CEI (Comissão Especial de Inquérito) para investigar a superlotação nos ônibus e o não cumprimento de contrato, entre outros problemas. Segundo o vereador Silas Cuba (PT), presidente da CEI, o contrato de 2009 previa o congelamento da tarifa por dois anos mas, desde então, foi reajustada por três vezes, passando de R$ 2,20 para os atuais R$ 2,65.
Procurada na tarde de ontem, a empresa não indicou alguém para comentar o assunto.