Mensagem (clonada) de Fernando Pessoa


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“Deus quer/ o homem sonha/
a obra nasce.”

“Valeu a pena? /
Tudo vale a pena/
Se a alma não é pequena.”

“ Triste de quem vive em casa,/ Contente com o seu lar/
sem que um sonho,
no erguer de asa/
faça até mais/ rubra a brasa/
Da lareira a abandonar!”


Estes versos, muito conhecidos, com frequência resgatados e amplamente citados em contextos diversos por conta de sua universalidade, fazem parte de poemas que compõem o livro Mensagem, de 1934, o único em Língua Portuguesa que Fernando Pessoa publicou em vida. Muito anteriormente, em 1918, dera a público 35 Sonnets, em inglês.

Os primeiros versos transcritos acima iniciam O Infante. Os que se seguem abrem a segunda estrofe de Mar Português. Os outros pertencem a O Quinto Império. Ao todo são 44 poemas cujas transcendência e singularidade bastariam para justificar a glória que passou a indiciar o poeta morto um ano após a publicação do livro de que se fala.

Se o âmago de cada poema vem das regiões da alma alimentadas pelo lirismo, a organização deles sob égide temática transforma o conjunto em epopeia. Esta, embora fugindo à forma clássica de narrativa, e apesar da fragmentação voluntária, desvela evidente louvor épico. Por isso, o título inicialmente escolhido foi Portugal, como se vê na edição clonada do original que serve de inspiração a essas linhas. Depois o autor o mudou para Mensagem, palavra que seria construção sugerida pela fala de Anquise a Eneias, na Eneida de Virgílio: Mens agitat molem / A mente move a matéria.

Em cada uma das partes que compõem o livro, o poeta revisita o país natal com conhecimentos históricos, condições emocionais peculiares, um certo olhar estrangeiro, recursos estilísticos originais, inovação formal que o filia ao modernismo com toques muito pessoais ou pessoanos. Brazão resgata personagens heróicos através de elementos das armas lusitanas. Mar Português canta o período de ouro da Pátria, o das navegações e grandes descobrimentos. O Encoberto é referência explícita a Dom Sebastião, cujo mito do retorno, o Sebastianismo, ainda vige meio disfarçado na alma portuguesa.

Há em tudo também muito da tragédia de Shakespeare na constatação da complexidade dos afetos humanos.

Por suas metáforas novas, referências polissêmicas, temáticas universais, Mensagem ultrapassa a conotação eminentemente histórica e nisso reside a sua grandeza. Quando lemos num único verso “ mas todo vivo é eterno infante “, podemos traduzir infante por príncipe, criança, herdeiro, sonhador... É pelo grau de correlações internas, e pela projeção de nosso mundo psíquico nas imagens, que o sentido se completa, adensa ou expande.

A edição a que se refere este texto mostra como o verso acima citado, e toda a estrofe que o contém, do poema Dona Tareja, eram completamente outros, substituídos para dar lugar à forma definitiva, cuja intensidade e aglutinação de sentidos promovem fissão vocabular de grande efeito sonoro e imagético. E nos apresenta, como se percebe, aquilo que não veremos mais daqui para frente, já que pouquíssimos escritores estão longe do computador. O que poderíamos ver como parte do processo criativo, deixa de existir na medida em que o autor, enquanto produz, deleta e reescreve, sem deixar pistas do fazer literário.

A letra elegante de Pessoa, levemente inclinada para a direita, registrando no índice a distribuição dos poemas; algumas observações preliminares; os vários xxxx da máquina de datilografia encobrindo um nome, um sufixo, um prefixo; o descarte de um poema inteiro ( A outra asa do Grypho) desconsiderado com a observação “nula”— são elementos de composição e desconstrução que nos fazem olhar a parte física de cada poema como saída diretamente das mãos do autor. Isso é emocionante, ainda mais quando se tem em mente a aura de mistério que desde sempre acompanhou o escritor.

Responsabilidade da Babel, a edição clonada da original da Biblioteca Nacional de Portugal é novidade no mercado editorial e presente importante para todos os leitores de Pessoa, contingente que só faz crescer, contrariando a percepção do poeta que dizia não haver público para seus versos. Cada geração que por ele se apaixona descobre perplexa o sofisticado mundo interno que organizado em diferenças e hierarquias produziu esse fenômeno que são os heterônimos, referidos ao lado.


O MÚLTIPLO

Fernando Pessoa

Fernando Antônio Nogueira Pessoa nasceu em 1888 em Lisboa. Aos cinco anos perdeu o pai. Em 1895 a mãe se casa novamente com um diplomata e vai morar em Durban, na África, para onde leva o filho. Ali o menino é matriculado numa escola inglesa, cuja influência será importante na sua formação. Faz uma série de viagens, com a família ou sozinho, entre Lisboa e Durban, até completar 19 anos, quando decide fixar-se em Portugal. Escreve em jornais e revistas, lança o primeiro livro, 35 Sonnets.

Com a publicação póstuma das Obras Completas, em 1942, sete anos depois de sua morte, o grande público percebeu o caráter extraordinário e complexo da rica poesia de Pessoa. Os críticos passaram então a considerar o inusitado da despersonalização (real ou fingida) manifesta na criação do que o poeta chamou de seus heterônimos: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, que assumem na obra estéticas diversas. Reis é o neoclássico na forma e no fundo. Caeiro, eliminando o ritmo, é a negação da transcendência. Campos, mantendo-o, representa a irrupção desordenada da subjetividade. Quanto a Fernando Pessoa ‘ele-mesmo’, é o que se apresenta mais integrado na linha tradicional da poesia portuguesa. Os quatro e mais dezenas de outros que irromperam desde a infância do autor, criaram um fenômeno desconhecido até então na literatura. Talvez a melhor explicação viesse do próprio criador que chamou à sua obra, “drama em gente”.

Fernando Pessoa morreu de infecção hepática, no Hospital de São Luís, em Lisboa, aos 47 anos. (SM)


Serviço
Título: Mensagem— Edição clonada do original da Biblioteca Nacional de Portugal
Autor: Fernando Pessoa
Editora: Babel Editora de Livros, Publicações e Multimídia Ltda.
Ano : 2011
Preço: R$ 200
Onde comprar: Saraiva.com

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