Falta de civilidade


| Tempo de leitura: 2 min

É triste deparar-se com a falta de respeito que boa parte da população brasileira devota ao que é público. Um problema cultural, com certeza, que só pode ser compreendido em sua totalidade histórica. Das relações da casa grande com a senzala à formação econômica do país, muito desse desrespeito deve-se ao que tão apropriadamente Sérgio Buarque de Hollanda chamou de ‘cultura da personalidade’, uma exagerada autonomia que sempre levou o homem brasileiro a um ‘individualismo radical’, produzindo uma luta constante pela auto-superação e pelo acréscimo de prestígio pessoal.

O fato é que desdenhamos o que é público. Nossa urbanização tardia e nossos resquícios de aristocracia escravocrata ainda nos fazem respeitar mais os laços familiares e pessoais do que as regras necessárias para o bem-estar coletivo. Tememos a hierarquia e os poderosos, mas nos ‘lixamos’ para os nossos vizinhos. Enquanto as sociedades norte-americana e europeia seguiram o caminho da racionalização das relações sociais, baseado nas revoluções científicas e na reforma protestante, nós optamos por outro menos rigoroso, no qual a única disciplina possível era aquela determinada pelos senhores poderosos ou pelas relações de compadrio.

Nesse sentido, a degradação dos chamados ‘ecopontos’, espaços que deveriam ser pontos especiais para o transbordo do lixo, não chega a ser uma grande surpresa, infelizmente. Conforme apontou matéria publicada pelo Comércio no domingo, 18/09, o que era para ser solução para o meio ambiente transformou-se em grave problema para a cidade. Sem respeito a qualquer regra que não seja a do seu próprio interesse, muitas pessoas ignoram não apenas as placas de sinalização presentes nesses espaços, mas também o direito dos outros de viverem distantes da sujeira e dos odores que não produziram e que não desejariam por perto.

Mesmo que se cobre da Prefeitura uma fiscalização mais atuante e rigorosa, uma cobrança que é devida e necessária, não podemos eximir a população da responsabilidade que lhe cabe, não apenas no que diz respeito às denúncias, mas sobretudo em relação ao respeito que todos nós devemos ao direito do outro e aos espaços públicos de nossa cidade.

Apesar de sermos uma coletividade ainda jovem dentro de um contínuo processo civilizatório e de não termos nos adaptado totalmente ao ritmo e às demandas das grandes sociedades urbanas, necessariamente mais disciplinadas e racionais, já está na hora de começarmos a entender e respeitar as premissas que mantêm a coesão das sociedades contemporâneas.

Se obedecer às determinações públicas no Brasil ainda é um sintoma de inferioridade, como lembra o antropólogo Roberto DaMatta, uma característica de ‘babaca’ ou idiota, então seria importante que começássemos a enaltecer os ‘babacas’ e a punir com mais severidade os espertalhões que insistem nessa ancestralidade anacrônica e perniciosa.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários