Fé, imagem e show


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Alguns defendem a idéia de que hoje vivemos na pós-modernidade. Outros, porém, ainda acreditam nos pressupostos da razão e do mundo moderno. Os primeiros preconizam uma sociedade individualizada, na qual os valores tradicionais, as crenças e as ‘grandes verdades’ estariam se diluindo nas esferas cotidianas do consumo, do espetáculo e da emoção. Os últimos ainda se prendem à tradição da modernidade, argumentando que a condição humana é impossível sem os valores mais sólidos da religião, da moral e da racionalidade.

A despeito desse inesgotável debate, é impossível negar a força da imagem, do espetáculo e do consumo na sociedade contemporânea, forças que se aceleram e agilizam em função das modernas tecnologias de comunicação a distância. Academias de ginástica, produtos de beleza, roupas de marca, carros e até mesmo as já tão comuns tatuagens são exemplos claros dessa busca incessante que empreendemos para alcançar o prazer, o status, o reconhecimento, o destaque e a satisfação pessoal.

Nessa linha de raciocínio, parece que vivemos em uma sociedade cada vez mais narcisista e imagética, na qual a imagem e a representação se sobrepõem à realidade concreta e natural do cotidiano. Uma sociedade que os jovens dos anos 60 tentaram contestar, mas que os de hoje abraçam com bastante naturalidade.

Dentro desse contexto, até mesmo a espiritualidade parece mais imagética e espetacular do que já se supôs um dia. Os cultos tradicionais, também imagéticos e plenos de simbolismo, porém mais voltados para a reflexão e para o silêncio introspectivo, vão aos poucos abrindo espaço para os grandes eventos, em que missas se transformam em shows e os sacerdotes em grandes estrelas pop.

O Hallel seria um bom exemplo dessas mudanças. É interessante notar sua força, em um momento em que a Igreja Católica está perdendo fiéis no Brasil, como apontou um estudo divulgado pela Fundação Getúlio Vargas. Em seus três dias de evento, levou ao Fernando Costa mais de 100 mil pessoas, segundo seus organizadores.

A celebração de Padre Robson, por exemplo, atraiu mais de 25 mil pessoas, algo impensável para uma missa de antigamente e bem mais próximo de um show de grandes artistas. E isso porque o padre Fábio de Melo, a grande estrela da música católica, não veio.

Mas, se as pessoas estão se afastando do catolicismo, porque estariam se aproximando dessas celebrações? Seria em busca de uma fé mais facilmente acessível? Seria simplesmente pelo show, pela catarse que ele possibilita e pela possibilidade de enfatizar sua individualidade perante o coletivo? Seria pela Igreja ou pelo Cristo que ela representa?

Difícil responder. De qualquer forma, é positivo que pessoas se reúnam em torno de mensagens concretas de paz, amor e harmonia, a despeito das crenças individuais. O mundo está precisando disso.

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