É difícil definir o termo governabilidade. Teoricamente, seu escopo é abrangente. Seus conceitos foram redefinidos ao longo dos séculos, variando seus significados conforme o país, a região ou o tempo. De forma geral, está ligada ao conjunto de condições necessárias para o exercício do poder. Compreende a forma de governo, as relações que se estabelecem entre os poderes, o sistema partidário, o equilíbrio entre as forças políticas e a capacidade política de decidir.
No Brasil dos últimos 50 ou 60 anos, esse termo tem sido muito utilizado. A deposição de um presidente, a dificuldade de se aprovar e conduzir reformas, o quase impossível combate à corrupção, entre vários outros problemas, tudo pode ser explicado pela questão da governabilidade.
Para melhor compreendê-la, alguns estudos tentaram listar os fatores que a influenciam. Encontraram uns poucos, mas esqueceram-se de um mais importante, que vem impactando a política brasileira há vários anos: o fator Sarney.
Nessa última semana, ele atuou novamente. O novo ministro do turismo, Gastão Vieira, é de sua influência. Curvando-se diante da força do ‘Richelieu maranhense’, Dilma até elogiou a biografia do deputado. Difícil entender.
Há mais de 50 anos na vida pública brasileira, o senador foi aos poucos se transformando numa espécie de eminência parda de nossos governos, excetuando, talvez, aquele em que assumiu nominalmente a presidência. Com o tempo, ganhou uma força que, aparentemente, parece desproporcional. Para além das inúmeras falcatruas creditadas a ele, nepotismo, desvio de dinheiro público para a fundação de direito privado que leva seu nome, aprovação dos famosos atos secretos, conta no exterior e acúmulo indevido de aposentadorias, entre várias outras, o Maranhão, sua terra natal e uma espécie de ‘feudo’ político, governado por parentes ou aliados por todo esse período, é um dos mais pobres e carentes do país. Se olharmos para seu outro feudo, o Amapá, também não encontraremos nenhuma maravilha em termos de índices sócioeconômicos satisfatórios.
Então, o que o torna tão poderoso, a ponto de fazer com que figuras políticas importantes como Fernando Henrique, Lula e agora Dilma Rousseff, antes ferrenhos críticos do coronelismo e do atraso por ele representado, acabem reféns de suas articulações, às vezes até de forma ingenuamente exagerada, como foi o caso de Lula, que publicamente elogiou sua já tão respingada biografia?
A tão falada governabilidade? Talvez. O fato é que entra governo, sai governo, Sarney não se afasta do poder, totalmente indiferente à ideologia de plantão, às regras ou a qualquer outra coisa que não sejam os seus interesses.
A força de Sarney é tão grande que alguns críticos ironizam o nome de um de seus livros, ‘O Dono do Mar’. Enxergam aí um ato falho do senador. Na verdade o nome correto seria ‘O Dono do MarANHÃO’. E talvez do Brasil.
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