Quando cursei a Faculdade de Direito, tive um amigo, contemporâneo de curso, porém de uma série anterior, hoje já falecido. Ele, efetivamente, não apreciava o comunismo. Era o que se costuma chamar de conservador ou de extrema direita.
Eu, à época, contava com pouco mais de vinte anos e ele já havia passado, há bastante tempo, pela ‘curva perigosa dos cinquenta’. Tinha formação militar mas já estava reformado. Cursar Direito era, para ele, a realização de um antigo sonho.
Na época, o País vivia sob a égide do regime militar inaugurado em 1964, movimento de direita forjado na Escola Superior de Guerra e com forte apoio e efetiva colaboração do Governo Americano. Desnecessário dizer que o meu amigo aprovava, integralmente, o regime de então. O modo de agir e os seus objetivos, alguns, obviamente, não confessados.
Eu, como a maioria dos estudantes daquela época, era um ferrenho opositor da ditadura militar, embora nunca tenha sido um esquerdista de carteirinha.
Em verdade, quando se é jovem e estudante universitário, especialmente de Direito, tem-se o hábito de ser contrário a qualquer regime que esteja no poder. O caráter contestador é traço marcante no jovem.
Muito embora eu e o meu amigo ‘cinquentão’ pensássemos diferentes, tivemos um excelente relacionamento pessoal durante todo o transcorrer do curso. Como bom mineiro – o mineiro é hábil no exercício da política da boa vizinhança –, procurei sempre respeitar os pontos de vista dele, mesmo porque, além de bem mais velho, ele era aquilo que se costuma chamar ‘um cara legal’, ‘gente boa’. Era também muito prestativo e solidário para com todos os seus amigos, eu me incluía entre eles, além de exercer sobre todos nós, os mais jovens, forte liderança.
Hoje com mais de 50 anos, já maduro e com um olhar diferente da vida, confesso que não consigo entender com exatidão os motivos dessa ‘burra’ divisão entre direita e esquerda que durante décadas separou pessoas, países e dividiu o próprio planeta em guerra fria e imbecil. Uma divisão a meu ver destituída de qualquer razão lógica, especialmente para o homem comum que tem que trabalhar para o seu sustento e o da sua família, qualquer que seja o regime dominante.
Conheço pessoas de excelente índole, fraternas, honestas e comprometidas com o social, que são de direita. Outras, de igual perfil, que por sua vez se declaram de esquerda. Por outro lado, vários países conviveram – e alguns convivem ainda, com abusos praticados por ditadores facínoras e odiosos, ostentando bandeiras de esquerda e de direita.
Pessoas foram friamente assassinadas só porque pensavam e agiam diferente do detentor do poder. A humanidade assistiu, estarrecida, ditaduras de direita e de esquerda pregando o total desapego à lei, ao direito e às instituições. Enfim, caro amigo leitor, qualquer que seja a bandeira de uma ditadura, tenha o conteúdo político, filosófico, religioso ou econômico que tiver, sempre será condenável, mesmo porque o ditador sempre acha que detém a verdade absoluta do certo e do errado, devendo ser eliminado todo aquele que pensa diferente dele. Que absurda pretensão! Que santa ignorância!
Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca
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