Gabriel Martins Cicilian, 35 anos, faria 36 em outubro, era um radialista de futuro. Adorava rádio e adorava esportes desde muito jovem.
Contou-me várias de suas histórias, a maioria treinando em latinhas que faziam as vezes de microfones, narrando partidas, entrevistando estrelas.
Ele morreu ontem.
Perdoem-me por escolher esta forma pessoal para falar da morte de Gabriel.
Embora seus pais, Sirley e Corrado, fossem padrinhos de meu casamento, não convivi com Gabriel e seu irmão Gustavo suas infâncias e adolescências. A vida profissional nos leva daqui para lá e de lá para mais longe ainda.
Só fui conhecê-lo quando ingressou na Rádio Difusora, como repórter esportivo e onde passamos a trabalhar juntos desde que assinou seu contrato em primeiro de agosto de 2008. Quando decidiu se inscrever no Senac e fazer Radialismo, veio me perguntar o que eu achava. Disse-lhe que fizesse, se era ao rádio que queria dedicar sua vida. Cavocou seu ingresso no rádio que sempre tinha sonhado em fazer. Na maioria do tempo nossa relação profissional era pesada e focada no exercício jornalístico. Ele produziu, por vários meses, o Jornal da Noite que apresento todos os dias, entre 18 e 19 horas. Suportou minha ranzinzice e meu perfeccionismo. Fechava a cara em alguns momentos e permanecia bicudo por algumas horas, mas, sem mais nem menos, à minha passagem, brindava-me com uma de suas ‘pérolas’ piadísticas e, contrapartida por minhas cobranças, deixava-me irritado, exatamente como eu fazia com ele. Aí, ria, e ria de seu jeito: um sorriso irônico apenas desenhado na canto da boca. Era a deixa: voltávamos a falar do São Paulo, dele e meu, time do coração. E ai de quem ousasse ‘cutucá-lo’ quanto ao São Paulo...
Desde dezembro nos preocupamos com Gabriel. Ele convivia com cálculos renais. No dia 23, antevéspera de Natal, sentiu-se mal. Passou o dia no São Joaquim. Na noite daquele dia, confidenciou a outros companheiros de rádio que talvez não viajasse para Campo Grande (no Mato Grosso do Sul, onde veria a noiva), como pretendia, porque as dores continuavam. Deve ter se sentido melhor no dia seguinte, pois decidiu viajar. A longa viagem foi o primeiro passo de seu calvário. Chegou e foi diretamente para hospital local. Tinha hemorragia abdominal. Foi submetido a cirurgias. Entrou em coma. Não voltou mais para seus pais, seus amigos, companheiros de trabalho, sua noiva. Foi transferido para Franca, Hospital São Joaquim.
Permaneceu na UTI daquela casa de saúde até duas semanas atrás, quando foi levado para um quarto. Não havia mais o que fazer.
Gabriel Martins Cicilian morreu às 2h30 de ontem, de falência múltipla de órgãos. Não fui ao hospital vê-lo durante todo o tempo em que lá esteve. Preferi guardar a imagem do Gabriel gozador, excelente companheiro de trabalho e radialista esportivo. Ontem, não houve jeito. Fui ao velório, com minha mulher. Gabriel estava lá, rosto completamente sereno, sem marcas visíveis da tragédia de saúde que o acometeu. Sobre o peito, o crachá do GCN. Sou testemunha do orgulho que ele tinha por trabalhar na Rádio Difusora e no jornal Comércio da Franca. Desmontei.
Continuo desarticulado...
Sirley, Corrado e Gustavo estavam no velório amparados pela força que só Deus dá. Apenas disseram que o tempo dele foi muito curto, que ‘ele era ainda muito jovem’. Abracei-os. Deus é que decide. Mesmo que doa.
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