Às 3h15 do domingo 11 de setembro Geraldo Ribeiro Filho se despedia da vida. Depois de quatro anos de luta, o pedregulhense que ganhou o mundo como o criador dos calçados anti-stress foi vencido. Uma artrite reumatoide, que lhe causava dores insuportáveis, minou a resistência de seu corpo. As altas doses de cortisona, esteroide usado no tratamento da doença, acabaram provocando a queda de seu sistema imunológico e abrindo caminho para a instalação de diversas infecções que resultaram num quadro agudo de insuficiência renal. A morte do dono da Calçados Opananken, eleito Empresário do Ano em 2009, comoveu o setor calçadista. Seu velório reuniu empresários e funcionários que lotaram o Velório São Vicente durante toda a madrugada e manhã desta segunda-feira.
Geraldinho, como era carinhosamente chamado, nasceu em 1944. Seu primeiro trabalho foi como ajudante em uma torrefação de café. Mas logo descobriu que sua vocação era outra. Assistindo ao desenvolvimento da indústria calçadista, decidiu conhecer o chão da fábrica. Em 1973, conseguiu uma vaga como auxiliar de almoxarifado na Calçados Pestalozzi. Muito curioso e dedicado, em dois anos, exerceu diversos cargos e conheceu de perto cada detalhe da produção.
Foi nesta época que a amizade com o consultor Zdeneck Pracuch mudaria sua vida. Das conversas entre os dois, veio o convite para que Geraldinho trabalhasse como agente de exportação. Função que o levaria para a Europa. Convidado pelo consultor, no final da década de 1980, Geraldinho foi para Portugal trabalhar no controle de qualidade de uma fábrica de calçados tcheca. Um ano depois foi transferido para a Espanha. “Lá fora, ele teve contato com o que havia de mais moderno no setor calçadista. Ao retornar ao Brasil, veio com uma ideia fixa - montar uma fábrica de calçados mais confortáveis”, disse Sebastião Siqueira, gerente comercial da Opananken e amigo de Geraldinho há mais de 20 anos.
Tomado pelo sonho de criar um novo tipo de calçado, passou a bater de porta em porta atrás de alguém que pudesse tirar seus projetos do papel. “Todo mundo o considerou louco. Ninguém acreditava que ele poderia ter sucesso. Mas com persistência e muito trabalho, ele conseguiu”, disse Siqueira.
Com o apoio da mulher de sua vida e mãe de seus três filhos, a Belmira, Geraldo resolveu vender todos os seus bens e investir ele mesmo na construção da sua linha de calçados. Nascia assim a Opananken Calçados. Tímida e em um prédio acanhado, em 1990, a fábrica produzia apenas algumas dezenas de pares que Geraldinho vendia nas portas de clínicas e hospitais. “Os primeiros modelos não eram muito bonitos, mas conquistavam pelo conforto. As palmilhas anatômicas faziam um enorme sucesso. A primeira forma para a produção teve como modelo os pés do Geraldo”.
Geraldinho costumava dizer que seus calçados tinham o objetivo de fazer com que os consumidores se sentissem descalços. “O homem nasceu para andar com os pés na terra”, bradava. A fábrica se tornou sua grande paixão. Passava o dia inteiro trabalhando. Perdia madrugadas para não atrasar as entregas. Logo estava fazendo negócio com clientes no Japão e na Europa. Seu conceito de sapato confortável ganhava o mundo.
Hoje a Opananken produz 1,2 mil pares por dia, emprega mais de 100 funcionários diretos e outros 250 por meio de suas empresas terceirizadas. “A empresa é a cara do Geraldo. Ele era o nosso líder. As ideias para novas linhas e novas tecnologias sempre partiam dele.”
A LUTA
Geraldinho descobriu a artrite reumatoide há cerca de quatro anos. A morte do filho Vainer há cerca de um ano e meio agravou seu estado de saúde. No primeiro semestre deste ano, uma infecção urinária levou-o a se internar. “Ele passou dois meses no hospital. O primeiro deles na UTI. Depois foi encaminhado a um quarto e recebeu alta”, disse Alfredo Carlos Alves, cunhado de Geraldinho.
Veio direto para Franca. Tratou de passar os últimos detalhes do comando da fábrica para o filho Ygor. “Ele estava já bem debilitado, mas não se entregava à doença e às dores. Queria viver. Tinha sede de vida. E não perdia o bom humor. Mesmo acamado, fazia brincadeiras e piadinhas com todo mundo”.
Há cerca de duas semanas uma nova infecção o levaria de volta ao Hospital Nove de Julho, de onde sairia morto. O empresário que inovou o setor calçadista com as linhas confortáveis, hoje imitadas no mundo inteiro, faleceu às 3h15 deste domingo. Seu corpo chegou a Franca por volta das 18 horas. Sua mulher Belmira não o deixou um minuto. Sua despedida foi com um longo beijo, muitas lágrimas e declarações de amor.
O corpo carregado pelo filho e pelos sobrinhos deixou a sala do Velório São Vicente sob uma salva de palmas. No Cemitério da Saudade, o sepultamento aconteceu em silêncio. Sob o caixão, a bandeira do Batalhão da Guarda Presidencial, ao qual Geraldinho pertenceu quando ainda jovem e do qual muito se orgulhava.
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