Modernidade e religião


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O Brasil sempre foi um país essencialmente católico. Culturalmente fundado pelos jesuítas, crescemos sob a imposição dos mandamentos católicos e suas verdades irrefutáveis. A despeito das crenças de índios e negros, o catolicismo entranhou-se nas convicções da maioria de nossa população.

Religião oficial do Estado, por muito tempo confundiu-se com ele, dificultando a profusão de outros credos, proibindo-os muitas vezes e perseguindo-os em outras.

Porém, o novo mapa das religiões agora divulgado pela Fundação Getúlio Vargas mostra que essa chama está perdendo sua força. Ainda é suficiente para ‘iluminar’ a maioria de nosso povo, mas já não consegue deter o avanço de outras religiões, nem mesmo daqueles que se dizem ateus ou agnósticos.

Na verdade, essa queda não vem de agora. Data dos primeiros registros censitários, em 1872, quando atingia 99,72% da população livre. Com as transformações sofridas pelo país, o advento da República, a separação entre igreja e estado, a industrialização, a liberalização dos costumes e o desenvolvimento tecnológico experimentado durante o século XX, o número de católicos foi caindo aos poucos, abrindo espaços para o fortalecimento de outras crenças religiosas.

Entre 1980 e 1990 o catolicismo experimentou uma queda acentuada, de 89%, em 1980, para 73,89% em 2000. Nas chamadas décadas perdidas, os Censos do IBGE mostraram o crescimento dos grupos evangélicos pentecostais, que tinham um discurso mais apropriado ao momento econômico.

Depois de uma rápida estabilização, o número de católicos voltou a cair com mais intensidade, chegando a 2009 com a menor participação de católicos em nossa história estatisticamente documentada: 68,4%, correspondendo a 130 milhões de brasileiros. Essa nova queda, no entanto, foi contrabalançada pelo crescimento dos sem religião e de uma diversidade de credos, o que muda um pouco o cenário atual de nossa religiosidade.

O que estaria acontecendo? A competição do mundo atual, tão cara à economia de mercado, estaria invadindo o mundo da espiritualidade, oferecendo aos ‘fiéis/consumidores’ um amplo ‘mix’ de igrejas para a remissão dos pecados, variando os preços/dízimos, o tamanho e a rigidez das penitências e flexibilizando os dogmas e outras imposições?

Difícil explicar ou entender as ‘razões’ que envolvem a fé e suas relações com a sociedade materialista e individualista em que vivemos.

De qualquer forma, não é de todo improvável pensar que essa perda de fiéis esteja ligada a uma crise de credibilidade da Igreja Católica. Os escândalos que a invadiram nos últimos tempos deixaram transparecer uma igreja hesitante, falha e dividida, em certo sentido passando-se até mesmo por hipócrita ou falsa. Dessa forma, fica difícil acreditar em sua infalibilidade ou que ela seja, verdadeiramente, a expressão da verdade eterna, mesmo para aqueles que sinceramente gostariam de fazê-lo.

Talvez esteja na hora da Igreja Católica rever alguns de seus conceitos.

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