'Mesmo se eu puder, nunca mais subo numa moto'


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Antônio Aparecido e Maria Inês Guimarães relembram o acidente com moto que o filho Alex sofreu há seis anos. O jovem bateu com a motocicleta em uma cerca da Rodovia Cândido Portinari e ficou com sérias  sequelas
Antônio Aparecido e Maria Inês Guimarães relembram o acidente com moto que o filho Alex sofreu há seis anos. O jovem bateu com a motocicleta em uma cerca da Rodovia Cândido Portinari e ficou com sérias sequelas

Na tarde do dia 12 de junho de 2005, um domingo, Antônio Aparecido, 55, e Maria Inês Guimarães, 51, se despediram do filho Alex, que foi para a casa de um amigo. Lá, o jovem decidiu acompanhar os colegas para assistir à corrida de cavalos em Cristais Paulista e tomar cerveja. Os pais não sabiam do passeio e só foram rever o filho na terça-feira. O reencontro foi na UTI da Santa Casa. O filho estava preso à cama do hospital, entubado, com o rosto extremamente inchado, um cano fincado no corpo para drenar o pulmão que estava perfurado e os olhos cobertos por sangue. Alex chegou no grau mais extremo da inconsciência e estava em coma. Continuava vivo porque aparelhos ajudavam na respiração.

O acidente aconteceu quando Alex voltava para casa, na Vila Santa Terezinha, em Franca, e sofreu um acidente na Rodovia Cândido Portinari. Ele estava em sua moto Titan, com o amigo Silvinho na garupa. Outros dois amigos seguiam em uma outra motocicleta. Num trecho de curva, as motos esbarraram e Alex perdeu o controle. Não conseguiu fazer a curva, seguiu reto e bateu numa cerca. Os amigos da outra moto nada sofreram. Só perceberam que algo tinha acontecido porque os amigos não reapareceram na estrada.

Silvinho quebrou o osso da perna (fêmur), mas se recuperou bem. Alex ficou destruído. Maria Inês se desesperou quando soube que o filho tinha se acidentado de moto. Temia o pior. A tragédia aconteceu por volta das 18h30 e, na Santa Casa, os pais sofreram angustiados até 23 horas quando tiveram notícia do filho. O estado dele era gravíssimo. Maria Inês e Antônio não tinham coragem de entrar na UTI para rever o filho. Adiaram até terça-feira. Até hoje não se esqueceram da cena que encontraram. “Falava para ele: filho, levanta, vamos embora, seu lugar não é aqui. Filho, não deixa a gente não. A gente começou a chorar e quando olhei estava saindo uma lágrima do olho dele”, disse a mãe, chorando, de mãos dadas com o filho.

Alex e a família enfrentaram 57 dias de UTI e outras duas semanas no quarto do hospital. O jovem, que saiu de casa pilotando a moto, voltou sobre uma maca, carregado pelos enfermeiros da ambulância. Os braços estavam paralisados, dobrados sobre o corpo. Foram necessários anos de fisioterapia para voltar a movimentá-los. Com as pernas, o desfecho foi outro. Alex não anda mais. A velocidade que um dia imprimiu em cima de uma moto hoje é zero na sua vida. Ele é carregado apoiado nos ombros dos pais, um de cada lado, ou sentado numa cadeira de rodas. Se colocado em pé sozinho, desmonta no chão.

Com a violência da batida de moto, o maxilar de Alex espatifou. Durante nove meses, se alimentou só de líquido, com uma sonda no nariz que levava o alimento até o estômago. O jovem precisou de três cirurgias para encaixar o maxilar no lugar novamente. “Depois das primeiras cirurgias ele mexia a boca e o queixo caía de novo”, lembra a mãe.

Os amigos que visitavam Alex saíam desolados, aos prantos, e não acreditavam que ele sobreviveria. A morte assombrou Alex por muito tempo. “Passou pela minha cabeça que eu ia morrer”. A mãe Maria Inês derramou muitas lágrimas com medo de enterrar um filho pela quarta vez - um casal de gêmeos e um bebê morreram ainda recém-nascidos quando a família vivia na Bahia. “Esse aqui nasceu de novo, veio do fundo do poço mesmo. Ele é um guerreiro. Deus salvou ele e agradeço por isso todos os dias.”

NOVA REALIDADE
Seis anos após se acidentar, Alex melhorou bastante, mas está muito longe de ser um jovem de 29 anos cheio de vitalidade, energia e planos. Jogar bola, passear com os amigos, trabalhar e namorar são apenas vontades na vida dele. Ele sempre se queixa para a mãe da ausência dos amigos. Diz que só servia de companhia quando podia ir no bar tomar cerveja.

Aos vinte e poucos anos foi aposentado por invalidez. Ele começou a trabalhar aos 17 anos. Quando se acidentou, estava empregado numa fábrica de borracha e era prenseiro. Trabalhava das cinco às duas horas da tarde e costumava fazer bicos numa banca de pesponto. Foi com o trabalho extra que juntou R$ 1 mil e pagou a entrada para comprar a moto aos 21 anos. Mas ele só usou por dois anos. Depois do acidente, o pai vendeu a motocicleta.

Os pais dele não se aposentaram, mas, como o filho, acabaram condenados a ficar em casa. Para cuidar do filho, Antônio pediu demissão da fábrica de borracha e a mãe, da casa onde era doméstica. De repente, a família perdeu a renda de três adultos que garantiam o alimento na mesa e o pagamento das contas. A alternativa do casal foi costurar sapatos em casa. Alex não pode ajudar os pais na tarefa, porque não movimenta os dedos das mãos. O sonho da família é ver Alex andando outra vez. “O neurologista fala que pode acontecer. Acho que se a gente tivesse dinheiro para pagar um tratamento adequado ele já poderia estar andando”, disse o pai. Se isso acontecer, Alex já tem uma decisão tomada. “Nunca mais subo numa moto.”

SUSTO
O acidente com Alex não foi o primeiro a apavorar a família Guimarães. No dia 29 de março de 2008, o irmão mais novo dele, Manoel Messias Guimarães, 24, se feriu com gravidade após bater a moto. Ele transitava pela Avenida Dom Pedro I quando desviou de uma caminhonete e acabou batendo contra um caminhão.

O impacto foi tão violento que estourou o pneu do cami-nhão. Messias teve fratura exposta na perna esquerda. O osso da canela partiu em dois e rasgou a pele. Ele passou por cirurgia e precisou colocar pinos para colar o osso. Ficou um ano em recuperação. “Quando soube do acidente, caí de joelho no chão e comecei a chorar. Pedi a Deus para não passar por tudo de novo com meu outro filho”, disse Maria Inês.
 

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