Hugo Alfredo Luan, 20, nasceu em Minas Gerais e se mudou para Franca há quatro anos. Mora com os tios e primos numa casa no Jardim Portinari. Na terra do calçado, conseguiu emprego numa fábrica de borracha, localizada num reduto de produção da cidade: o Distrito Industrial. Como não tem carta de motorista, aproveitava a carona na moto do primo Thiago Roberto Fernandes, 21, para ir e voltar do trabalho.
No dia 11 de agosto de 2011, uma quinta-feira, não fez diferente. Acordou cedo, tomou seu lugar na garupa, chegou à empresa de solados e cumpriu mais uma jornada de trabalho como chefe de seção. Por volta das cinco horas, reencontrou o primo. Thiago foi buscá-lo no serviço. Em meio aos carros e motos na Avenida Severino Tostes Meirelles, os dois conversavam sobre o presente do Dia dos Pais. Thiago planejava deixar o primo em casa e ir até o Centro para comprar um celular e presentear Cláudio Roberto Fernandes no domingo seguinte. A conversa foi interrompida de maneira brutal. Uma outra moto passou em alta velocidade e esbarrou na deles. Os dois caíram no asfalto.
Ainda zonzo, Hugo conseguiu empurrar a moto de cima da sua perna esquerda e foi socorrer o primo. Bateu no braço dele e disse “levanta”. Thiago não reagiu. Hugo olhou então dentro do capacete rachado e viu que os olhos estavam fechados e levemente estufados. Mediu o pulso do primo e não havia qualquer sinal de vida. Ele então se ergueu e, em pé, viu o sangue escorrendo pelo asfalto. Ainda teve forças para ligar para os bombeiros. O resgate chegou em três minutos. Hugo ouviu um dos bombeiros passando informações sobre a ocorrência. Escutou o que não queria: “É acidente com vítima fatal”. Instantes depois viu os bombeiros estenderem a temida manta prata sobre o corpo de Thiago.
Todas as provas, até hoje, foram insuficientes para fazer Hugo acreditar que o primo morreu, aceitar que um segundo sepultou uma vida tão jovem, destruiu sonhos e calou o riso do primo, amigo, irmão. “A ficha ainda não caiu. A gente só fala do Thiago no presente, nada é no passado. Não me acostumo ficar sem ele nos fazendo rir, contando piadas.”
Hugo não sofreu fraturas graves. Esfolou algumas partes do corpo. No dia da tragédia, a notícia foi a de que Thiago havia batido na traseira de um caminhão, mas o primo tem outra versão. “Durante dias fiquei tentando lembrar das cenas que vi no acidente para entender porque o Thiago morreu. Para mim, o caminhão que estava na faixa esquerda passou em cima do corpo do Thiago. Os exames apontaram esmagamento do tórax.”
Hugo disse que o primo gostava de velocidade, mas corria com a moto apenas quando estava sozinho. “Ele curtia a adrenalina e se encontrava com os amigos para correr, mas respeitava quando alguém estava na garupa. E no dia do acidente não estava correndo. O perigo é que na moto o parachoque é o seu peito.”
O jovem já comprou uma moto. Mesmo com a tragédia vivida pelo primo e sabendo que poderia ter morrido também, não pretende se desfazer da sua motocicleta. “Não tenho condições de pagar o financiamento para ter um carro. Tenho medo de ser vítima, mas não posso parar minha vida por isso, preciso da moto para trabalhar.”
Por enquanto, Hugo pede respeito. “O respeito acabou e é preciso respeitar o outro. É um absurdo você sair de casa para trabalhar e voltar dentro de um caixão.”
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.