Um estalar de dedos. Um segundo. Era todo o tempo que Thaís precisava para mudar de ideia e não subir na moto do namorado naquela tarde. Mas os preparativos para o seu casamento marcado para aquela semana estavam cada dia mais atrasados. Um segundo. A motorista do gol, talvez atordoada pelo trânsito intenso, poderia ter olhado melhor e reparado que, ao atravessar a rua, fecharia a moto que vinha ao seu lado, na Avenida Abrahão Brickmann. Um segundo, uma batida, uma queda. Uma morte, aos 14 anos.
Um segundo. Ednaldo estava apressado naquela tarde. Precisava buscar mais sapatos para pespontar e nem percebeu que acelerara mais que o recomendado. Enquanto passava pela Avenida Brasil, estava rápido demais para conseguir frear e desviar de outra moto que cruzava seu caminho. Um choque, uma morte. Seis crianças órfãs - de 12, 10, 8, 5 e os gêmeos de 3 anos.
Um estalar de dedos. No meio da tarde de uma segunda-feira comum, Wendel e a namorada iam postar uma carta no correio. Na Rua Antônio Bernardes Pinto, Wendel não viu uma Pajero. Mesmo no pare, a motorista da Pajero não viu Wendel. E seguiu. A moto invadiu a porta do carro. Wendel morreu na hora. Érica quebrou ossos das duas pernas, ficou internada e precisou de alguns dias para voltar a falar. Um segundo. Um mês depois, Érica passa os dias no sofá e seus cinco filhos continuam aos cuidados do tio.
Um segundo. Incontáveis pancadas, traumas, machucados e mutilados. Muitas lágrimas e famílias destruídas. Levantamento de todas as mortes noticiadas pelo Comércio desde 2001 exterminam qualquer resquício de dúvida: as motos se tornaram armas letais no trânsito de Franca. Em dez anos, 227 pessoas perderam a vida.
Sapateiros, homens de até 25 anos transitando aos fins de semana por avenidas e rodovias que cortam Franca são sinônimo de perigo iminente. Jovens como Thiago Fernandes. Aos 21 anos, o garoto que estava sempre de bem com a vida, queria ser advogado. Planejava se casar no ano que vem. Mas no dia 11 de agosto de 2011, ele tinha acabado de sair do trabalho e levava o primo para casa. Quando pilotava sua moto pela Avenida Severino Tostes Meirelles bateu em um caminhão. Morreu na hora.
Um segundo. E Graça, aos 49 anos, enterrou seu segundo filho. A moto de Thiago continua parada na garagem. Mas todos os dias, às cinco da tarde, ela espera o barulho da moto no portão. “Muitas vezes me pego falando com ele, é como se ainda estivesse vivo. Queria que fosse tudo um pesadelo”, lamenta a mãe.
Thiago integra a maioria das vítimas em uma triste estatística. Assim como ele, 105 jovens motoqueiros morreram no trânsito nos últimos dez anos (veja quadro nas próximas páginas). Segundos que transformaram a vida de famílias inteiras e que, no limiar do que pode ser alterado no destino de cada um, poderiam ter originado notícias diferentes. Menos velocidade, mais atenção. Menos auto confiança, mais prudência. Um segundo. Um freio. Uma vida.
TARDE DEMAIS
Alex Guimarães, 29, não morreu. Mas esteve no limite. Há seis anos, voltava de Cristais Paulista para Franca com um amigo na garupa de sua moto. Numa curva, esbarrou na motocicleta de um colega. Perdeu o controle. Não conseguiu fazer a manobra. Estourou a moto em uma cerca no acostamento da Rodovia Cândido Portinari. Passou 57 dias em coma, imóvel e desfigurado. Ficou fechado na UTI da Santa Casa. Os médicos sentenciaram sua morte. Várias vezes. Ele resistiu. Mas foi obrigado a trocar o banco da motocicleta pelo assento de uma cadeira de rodas.
Não consegue ficar em pé. Não toma banho sem ajuda do pai. Não se vira sozinho quando está deitado. Também não se lembra do acidente. Sofreu um apagão na memória. Só não se esquece de um detalhe: estava em alta velocidade. “Estava correndo sim. Eu não tinha medo de sofrer acidente. Agora não tem como eu voltar no tempo. Me arrependo muito. Mesmo se um dia eu puder, nunca mais vou subir numa moto.”
Tudo, por um segundo.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.