Francana de coração, Dora Bordignon Martins, 67, tem o tino para a educação nas veias. Filha de fazendeiro e de uma professora (João e Marta Bordignon), ela nasceu em Casa Branca (SP), mas passou parte de sua infância e adolescência como aluna do Colégio Nossa Senhora de Lourdes, em Franca. Foi junto das Irmãs de São José que aprendeu lições que aplicou anos mais tarde na E. E. “Caetano Petráglia”. “Minha mãe foi minha primeira mestra. As lições que ela ensinava estão gravadas nitidamente em minha memória e fazem partes das recordações mais doces e belas da minha infância. Quantas saudades. Tempo bom aquele. Depois, no colégio tive grandes lições de vida.”
Estudiosa, fez quatro faculdades (pedagogia, estudos sociais, filosofia e direito, tendo inclusive registro na OAB) e antes de escrever sua trajetória educacional à frente do Caetano, chegou a mudar para o Estado do Amazonas onde foi aprovada para o cargo de procuradora estadual. Para cuidar do pai, deixou tudo e voltou para Franca. Deu aula na E. E. “José dos Reis Miranda Filho” e logo prestou novo concurso para diretora de escola. Aprovada, assumiu o cargo em Guarujá, no litoral paulista, até conseguir ser transferida de volta e ser designada diretora do Caetano Petráglia.
Começava aí uma vida dedicada aos alunos daquela escola e um trabalho diário para colocar a unidade entre as melhores de Franca. Foram três décadas e muitas histórias que Dora pretende contar em um livro que começou a escrever sobre sua carreira na educação. Saudosista, guarda em casa diversas revistas que relembram as festas, comemorações, formaturas e projetos desenvolvidos na unidade.
Dinâmica, Dora recebeu o Comércio em sua casa e ao lado do marido, Fábio Barbosa Martins, que também trabalhou ao seu lado na escola como coordenador pedagógico, falou de como se tornou uma diretora tão conhecida na cidade e de seu temperamento. Contou sobre os diferenciais de seu trabalho, avaliou o nível da qualidade do ensino e destacou nomes que ajudaram a traçar sua trajetória. “A Ana Lúcia Miarelli que foi a primeira coordenadora pedagógica. O doutor Thomaz Novelino que sempre valorizou o nosso trabalho na escola. O professor Wilson Scarrabucci Teixeira, que encaminhou minha carreira como professora. O Valdes que sempre lembrou da escola na rádio e também a Patrícia, que foi minha professora no Colégio de Lourdes. Linda, elegante e muito alegre, ela nos ensinou a beleza da vida.”
Dora não se esquivou em falar de momentos polêmicos. Mandou recado aos novos educadores e, antes de encerrar, disse que apesar dos inúmeros convites não pretende assumir nada ligado à área. No momento se dedica à advocacia e pensa em descansar. “Afinal, mereço. Trinta anos não foram trinta dias.”
Comércio da Franca - Como a senhora chegou à E.E. Caetano Petráglia?
Dora Bordignon Martins - Vim transferida de Guarujá, onde fui diretora. Quando cheguei, o Caetano já era uma escola muito conhecida, mas necessitava de modificações urgentes. Para isso, tive muita ajuda do delegado de ensino Vicente Minicucci, que me deu toda força, toda liberdade para mudar a estrutura da escola. Os pais me receberam muito bem. Eles sempre acreditaram no meu trabalho.
Comércio - O que a senhora fez para melhorar?
Dora - Sempre fui muito líder no meu trabalho. Sou até hoje uma pessoa muito alegre. E consegui cativar alunos e professores. Fiz da escola, um ambiente onde em cada canto você encontrava uma demonstração de amor. Se não for assim, você não consegue nada com os alunos. O Caetano se tornou, então, uma escola modelo.
Comércio - A senhora se envolveu muito...
Dora - Era um trabalho em que eu não tinha horário. Se fosse necessário ficar oito, dez horas na escola, ficava. Cuidava da escola, como cuidava da minha casa. Introduzi um trabalho pedagógico que não havia na cidade, fazia as avaliações dos alunos que eu mesma elaborava. Hoje, eles falam em Saresp, eu já fazia isso há 30 anos. Foi um trabalho árduo, mas que fazia com muito carinho.
Comércio - Como diretora, a senhora cobrava muito de professores e alunos?
Dora - A escola na minha direção tinha como único e exclusivo objetivo, o aluno. Lá, o aluno estava em primeiro e segundo lugar e em terceiro, quarto, o professor. Sempre cobrei muitodeles e, porque não dizer, dos pais também. Se necessário fosse, eu os chamava, fazia aconselhamento e eles retribuíam de uma maneira muito gratificante. A presença de pais na escola era de 95%.
Comércio - Como a senhora conseguia esse retorno?
Dora - Trabalho. Trabalho. E precisa ser bem feito. Sempre dei muita segurança à escola, os pais deixavam os filhos e saiam tranquilos. E também havia a competência profissional dos meus subordinados, porque os que chegavam fracos eu treinava.
Comércio - Como a escola era vista pela Diretoria Regional e pela Secretaria Estadual?
Dora - O Estado sempre reconheceu o valor do Caetano. Recebi alguns prêmios direto de São Paulo e recebia muitas visitas da Secretaria da Educação. A dona Dora sempre teve uma posição muito boa em São Paulo.
Comércio - E em Franca, aqui a senhora era podada?
Dora - Sempre fui uma diretora muito independente. A Diretoria de Ensino tinha o trabalho dela e eu o meu. Porque na escola manda o diretor e na delegacia, a dirigente. Tive delegados que me apoiaram muito, como o Toninho Raiz e o doutor Vicente Minicucci. Respeito muito os supervisores e eles também me respeitavam.
Comércio - A senhora sempre foi autoritária em suas ações?
Dora - Tenho autoridade, porque sempre me baseei nas leis dos homens e também nas leis de Deus. Então não sou autoritária, sou precisa em tudo o que faço. Era capaz de ficar sentada como estou com vocês, duas, três horas com pais, com alunos, orientando.
Comércio - Mas, a senhora era criticada?
Dora - A gente não consegue agradar a todos, mas lhe garanto que 90% estavam com a dona Dora. Se eles não estivessem não haveria tanto movimento agora.
Comércio - O que falta nas escolas atualmente?
Dora - À escola compete completar a educação. Ela precisa ficar mais humana, ser mais interessante para o aluno. Torço para que todas melhorem, pois como educadora não poderia pensar de maneira diferente. Quero acreditar nos novos diretores e professores. Acho que nossas escolas precisam de mais estilo, de mais firmeza, mais segurança. Resumindo, é preciso mais competência.
Comércio - Houve momentos difíceis em sua trajetória como diretora?
Dora - Sempre tem, às vezes, você quer fazer, trabalhar, produzir e você não conta com a compreensão necessária. Você quer fazer o bem e você acaba barrado por obstáculos como a incompreensão, a mentira, a maldade, as calúnias, a incompetência e a falta de profissionalismo. Mas consegui vencer tudo isso.
Comércio - O episódio envolvendo a senhora e a dirigente de ensino Ivani Marchesi foi um desses momentos desgastantes (em 2007, a dirigente procurou a polícia para registrar queixa de injúruia com racismo contra Dora. No documento, Ivani disse ter sido chamada de “negrona” pela professora)? Como era a relação entre vocês?
Dora - Era uma relação tranquila. Ela na diretoria de ensino e eu no Caetano. Nunca houve discussão. Ela visitou a escola duas vezes, nunca tive nada contra ela. O contato com os diretores era feito em reuniões. Tudo o que eu fazia, era dentro da lei. Não tinha porque ela interferir. Nunca dei trabalho à dirigente. Respeitava as posições dela e, às vezes, as adaptava a minha realidade. Nossa relação era diplomática. O que aconteceu, a iniciativa dela que o Comércio publicou, era uma inverdade. Não sei porque aconteceu, se um dia ela pudesse explicar. Mas fui absolvida de tudo. Não havia provas. Foi tudo resolvido.
Comércio - Como a senhora ficou sabendo do possível fechamento da escola Caetano?
Dora - Estava na direção, porém de licença . Nós não fomos informados de absolutamente nada, apenas que seriam fechadas sete classes. Foi dada a ordem e pediram para que não efetuássemos mais matrículas. Começamos a lutar. Comuniquei os pais e eles mesmos se organizaram. Veio um coordenador de São Paulo, esteve em contato com a dirigente no momento, mas também não resolveu nada. Fomos sentindo que a situação estava se agravando a cada dia. As mães chegaram até o governador que expediu uma ordem direta ao secretário Paulo Renato, já falecido, para que a escola fosse restaurada. Conseguimos, mas até chegarmos aí houve muito sofrimento.
Comércio - O que a senhora sentiu quando foi informada sobre o fechamento?
Dora - Sou uma pessoa que tenho muito facilidade para estabelecer limites, então, sei até que ponto vou. Quando veio a notícia, disse: “Enquanto eu estiver aqui, não fecha.” E não fechou. Agora, não sei.
Comércio - Como foi a preparação para a aposentadoria?
Dora - Foi difícil. Muito difícil. Sinto saudade das crianças, porque havia um envolvimento muito grande. Mas fui me preparando seis meses antes. Fui viajar, pois sabia que a minha aposentadoria iria sair. Saí em março, dia 13, e ainda não voltei à escola. Estou me preparando emocionalmente para visitar as crianças.
Comércio - Após a sua aposentadoria, a escola Caetano já teve diversas diretoras. Como a senhora vê essa troca?
Dora - Fui acompanhando através dos pais e acho que isso traz muitos prejuízos. Foi movida para o meu lugar uma diretora efetiva, mas ela está afastada, na diretoria de ensino. Então, eles colocaram uma substituta, depois outra... São professoras que não são concursadas. Também mudaram de vice-diretora, já foram três. Cabe ao Estado resolver essa situação, pois a transitoriedade é muito prejudicial.
Comércio - O que mais entristece a senhora como educadora?
Dora - Ver uma criança cuja mamãe não liga para ela. O pai também não. Ela está abandonada. Então, temos que ir lá buscá-los. Busquei muitos. Recuperamos muitos. Também é muito triste, inconcebível, saber que uma criança sai da escola sem saber ler e escrever. Da minha escola, nunca saiu. Eu garanto. Isso ainda acontece porque não há uma versatilidade de métodos, técnicas, e não se respeitam as diferenças individuais.
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