Há mais de 300 anos as leis formuladas por Isaac Newton descrevem o comportamento de corpos em movimento, assim como as forças que agem sobre eles e os novos movimentos resultantes dessas ações. Se não são muito precisas atualmente, pelo menos nos permite uma excelente aproximação quando restritas à escalas de dimensão e velocidades encontradas no nosso cotidiano. De forma geral, ainda são importantes para explicar quase todos os fenômenos físicos observados no dia-a-dia de uma pessoa normal.
Porém, com um pouco de abstração é possível ir ainda mais além, saindo da física clássica e convergindo para a sociologia do cotidiano. Sua terceira lei, por exemplo, nos permite entender algumas ocorrências que vivenciamos no dia-a-dia. A atitude da mãe que atacou e rendeu o acusado de estuprar sua filha pode ser considerada uma delas. Como diz Newton, ‘para toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade’.
Nesse sentido, a intensidade de covardia colocada no possível ato de estupro gerou na mãe um sentimento de raiva e vingança, no sentido inverso e na mesma intensidade. A um ato tão ignóbil, só mesmo uma reação violenta e agressiva, não apenas da mãe, mas também de boa parte da comunidade francana, que aplaudiu sua iniciativa e a entendeu como válida e até mesmo necessária, subentendendo-se aí a inoperância da polícia e das leis.
De certa forma, nos sentimos vingados. Nessa atitude solitária e corajosa, acabamos por despejar nossa raiva contra todas as injustiças que presenciamos em nossa sociedade. No limite da sensação, nos solidarizamos com essa mãe.
‘Newtonianamente’ falando, fica fácil entender, até mesmo aceitar, sobretudo se nos colocamos no lugar dessa mulher, impotente diante da tragédia familiar consumada, e torturada por saber que o principal suspeito de protagonizá-la ainda estaria solto, esquecido pela justiça. Porém, pensando de forma sociológica, essa atitude, apesar de compreensível, é também muito perigosa.
Se a moda pega, mais e mais pessoas reagirão de forma ‘newtoniana’ às ações violentas das quais forem alvos. Mas, de acordo com Newton, essas reações, quando realizadas, se transformam em novas ações, gerando, por sua vez, outras novas reações. Nesse sentido, a sucessão delas poderia colocar em risco o estado de direito, recolocando em pauta o mundo selvagem ou ‘natural’, como preferem alguns, onde a força e o poder passam a resolver todas as questões, a despeito e à margem da lei.
Já experimentamos esse ‘estado natural’ e os registros que ficaram para a história não são nada positivos. Mesmo que falha, a lei é melhor que a força. Deixemos então à polícia e à justiça o que for de sua competência. Se quisermos lutar por justiça, que o façamos nos limites da lei, pelo voto e pela ação política.
Mas que foi bom, ô se foi!
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