É noite. Nu da cintura para cima, sento-me à soleira da porta, tiro do bolso o canivete, distribuo, lentamente, o fumo sobre a palha, não há pressa. O trator descansa seu motor após longo dia de trabalho, a terra recolhe seu pó após longo dia de entrega e a lua vasculha seu olhar tímido sobre mim, buscando os acordes de um violão. Nada ouve, vê somente a fumaça fina, subindo vagarosa, entregando-se passiva à umidade da noite. Nu da cintura para cima sinto a noite espargir seu frescor sobre mim, distraio-me sabendo que a terra bebe todo aquele sereno, e minha imaginação faz crescer ligeiro uma enorme plantação de milho. Porém lembro-me do enegrecer de seus olhos, do carmim de seus lábios, e a lavoura se apequena...se apequena... até tornar-se chão vermelho e revolto.
Impaciente, levo o cigarro à boca e solto baforada longa.Uma bonita nuvem de fumaça se forma diante de mim, tento agarrá-la com as mãos, mas a noite a devora rapidamente e eu me sinto só mais uma vez.Atiro a guimba de cigarro longe, os lábios, que um dia prometeram roçar leve a ternura de um rosto e semear todo o amor que possuo, sentem-se secos agora, talvez, por terem semeado em terra estéril.
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