A minha viagem literária muito dificilmente se faz por estradas planas. Aliás, ao contrário. O caminho tem-se caracterizado sempre pelas curvas e sinuosidades.
A minha viagem pela vida (tão rápida!) tem-se caracterizado também por tropeços e por quedas formidáveis.
Em ambas as caminhadas (e isso me foi fundamental), houve sombras que me agasalharam ao meio -dia e houve luzes que me guiaram à meia-noite. Graças a essas intervenções, vivo e escrevo.
Expressinho foi-me um desses apoios.
Conhecemo-nos no Salão do Japa, quando ele estava localizado diante da minha residência, lá na Rua Estevão Bourroul. E naquela época distante, o Expressinho, sujeito muito inteligente, já exercia as atividades ensinadas pelo Barão de Drumond. E, já naquela época, o meu amigo já explicitava sua permanente arte: inventava histórias alegres e criava situações estrambóticas, envolvendo desavisados amigos.
De quatro em quatro anos, candidatava-se a vereador e fazia da campanha eleitoral o picadeiro maior donde alcançava o público com suas brincadeiras repletas de humor e graça.
Era sempre bem votado: uma vez recebeu sete votos e, noutra, dezesseis eleitores
Escolheram o seu nome. Numa eleição não ficou tão distante da vitória. Mais de trinta cidadãos externaram seu descrédito nos políticos e sufragaram o nome do Expressinho no dia das eleições.
Algumas de suas promessas eleitorais, ficaram famosas. Uma meia dúzia delas, registrei-as em crônicas e em livros. Eram quase sempre esdrúxulas: colocar brinco em todos os orelhões da cidade, plantar limoeiros nas calçadas, diante dos botecos, a fim de baratear o preço da caipirinha.
Essas promessas estúrdias eram divulgadas em “santinhos”, em que imprimia frases rimadas:
Você que está preso, que vive no xadrez,
Vote no Expresso desta vez.
Não dou camiseta, nem boné
Vote em mim quem quisé.
Semana passada, na loteca universal, o nome do Expressinho apareceu. Sorteado, viajou para outra morada. Soube de sua partida pelo jornal. Soube tarde, sequer pude me despedir do amigo.
Senti muito a separação. Agora, minha viagem pela vida fica menos alegre.
Minha viagem literária fica mais triste.
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