Estupro ignóbil, atitude honrosa


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Shakespeare tinha razão: ‘há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia’. Essas palavras proferidas por Hamlet, um de seus mais famosos personagens, talvez nos ajudem a compreender o que aconteceu em Cristais Paulista na última semana. O fato deprimente, tem ares e ingredientes de tragédia.

Apesar de sermos bombardeados por notícias sobre violência quase todos os dias, por incrível que pareça ainda somos capazes de nos indignar diante de alguns acontecimentos. Felizmente.

O violento estupro sofrido por uma dona de casa de Cristais Paulista é com certeza um desses acontecimentos. Surpreendida por um marginal já dentro de seu quarto, essa mulher foi obrigada a entregar-se ao sadismo de um homem pleno de covardia. Para salvar sua filha de 10 anos, que tudo presenciou do cômodo ao lado, não pensou duas vezes, ofereceu-se ao algoz. O resto, todos já sabem.

Com alguma revolta, deixamos um pouco o torpor que anestesia nosso cotidiano e, pelo menos no nível da reflexão, nos questionamos sobre a alma e o comportamento humano, sobre a vida, a sociedade que construímos e os indivíduos que nela se desenvolvem.

O que levaria um homem a cometer tamanha violência? A ameaçar de estupro uma criança de 10 anos? A seviciar sua mãe apenas para satisfazer prazeres torpes? Tudo isso está muito além do dinheiro almejado, não seria necessário.

O que explicaria essa atitude? Seriam apenas as drogas, como sugerem alguns? Ou poderíamos dividir um pouco essa culpa com a sociedade que estamos construindo? Será que a liberdade hoje experimentada pelos jovens não estaria um pouco excessiva, dificultando, já na idade adulta, a noção da idéia de limite? Ou a compreensão de que o convívio social só possível por meio do equilíbrio entre o interesse individual e o coletivo? Será que os valores que estamos passando aos nossos filhos não estariam demasiadamente ligados ao consumo, valorizando mais o ‘ter’ do que o ‘ser’?

Será que está faltando um pouco mais de punição para crianças, jovens e adultos? Ou será que é apenas violência e maldade, pura e simplesmente, em mais uma demonstração de que são inerentes à nossa condição de humanos?

Difícil responder. Talvez estejamos em um momento propício para repensar todas essas questões. Repensar os valores que defendemos, as normas, os processos educacionais e o próprio convívio social. Como sujeitos históricos, somos responsáveis por tudo que se passa em nossa sociedade.

Não é uma tarefa fácil. Porém, não é impossível. Se a atitude repugnante desse homem nos faz duvidar de nossa capacidade de evoluir, no sentido contrário a atitude corajosa, solitária e generosa dessa anônima dona de casa nos redime de qualquer dúvida sobre nossa humanidade.

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