Oceano, música instrumental de Richard Clayderman, e a sertaneja Tocando em Frente, de Almir Sater e Renato Teixeira, embalam a dança Gotas de um Oceano, apresentada por Anderson e Tailon. Em seguida, a pequena Bianca, 9, parece incorporar a serelepe boneca de pano do Sítio do Picapau Amarelo ao encenar a música de Baby Consuelo, Emília, a Boneca-Gente. Os três têm paralisia cerebral e movimentos limitados. Com alegria contagiante e muitos instrumentos, a turma do Conjunto Portal apresenta hits de Claudinho e Buchecha e Paula Fernandes. Cada um deles, alunos da Apae de Franca, tem uma deficiência, um desafio a superar.
“Não sou profissional da dança, mas quero mostrar que através do movimento o aluno é muito mais expressivo, muito mais comunicativo e demonstra que pode alcançar seus sonhos”, afirma Marta Maria Campos Cardoso, 46, coordenadora de Educação Física e eventos internos da entidade, que atende 966 alunos de várias idades.
Criado em 1995, o Projeto Portal - Arte, Esporte e Lazer tem como conceito “a passagem de uma realidade para o limiar de uma nova vida”. Hoje, dos 78 alunos do projeto, 25 participam das aulas de dança-teatro, música e fanfarra, que são extracurriculares e acontecem duas vezes por semana, das 12h30 às 17 horas.
Ao longo dos anos, as montagens foram aprimoradas e ganharam admiradores. Hoje elas acontecem gratuitamente em diversos locais, desde o intervalo dos jogos de basquete até eventos e palestras. Marta continua criando os modelos das fantasias, mas conta com o apoio de costureiras voluntárias e doações. “Aqui me realizo profissionalmente. Somos todos uma grande família”, afirma.
DESAFIO CONSTANTE
Com paralisia cerebral, o simpático Anderson Antônio da Silva, 24, começou a estudar na Apae ainda bebê e hoje cursa o ensino profissionalizante. “Ele tinha os movimentos limitados, mas com o trabalho da fisioterapeuta conseguiu mostrar habilidade para a dança”, explica Marta. “Sinto emoção com os aplausos. Me motivam”, fala Anderson com muita dificuldade e esforço.
Aos 9 anos, Bianca Andretta Ferreira Tanja demonstra maturidade. Também com paralisia cerebral, com maior lesão nas pernas, a garota cursa o 3º ano do Ensino Fundamental na Apae. No espetáculo Emília, ela é a protagonista. E o que a dança representa para ela? “Alegria, amor e paz. Adoro, ou melhor, amo”, resume.
Marta conta que Bianca não conseguia ficar sentada, não tinha controle do tronco e não girava os braços, mas com a ajuda da fisioterapeuta, também se superou. “O médico falou que eu ia ser um vegetal (pausa). Eu choro quando o meu pai dá depoimentos”, conta Bianca com serenidade e os olhos marejados. “Hoje me vejo uma garota normal e profissional. Me dedico muito à dança, ajudo a Apae”, diz.
CRIATIVIDADE
A inspiração para criar os espetáculos surge a qualquer momento. Em casa, ouvindo músicas, assistindo à tevê ou no teatro. “Aí surge uma ideia, começo a testar com eles e a montagem vai surgindo”, conta entusiasmada a coordenadora Marta Maria. A coreografia se adapta ao ritmo dos alunos, que também dão dicas.
“Esses projetos, de uma forma geral, levantam a autoestima dos alunos e contribuem para o desenvolvimento em todos os sentidos: psicológico, social e afetivo. Eles passam a acreditar que são capazes, independente de sua deficiência, eles são inseridos na sociedade.”
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