Acordei tremendo, na última terça-feira. Estava tenso, as mãos suavam, o pensar teimava em não se concentrar
Dali a pouco eu falaria para mais de 40 estudantes com idades entre 9 e 11 anos, na escola Iolanda Ribeiro Novais. Desde alguns dias, ocasião em que a professora Rita Maria Mozetti me convidou para visitar seus alunos do ensino fundamental e conversar com eles sobre o que faz o Editor de Opinião de um jornal com o peso e responsabilidade do Comércio da Franca, sentia-me diferente.
Acostumado a falar a adultos, amigos ou desconhecidos, não experimentava os sintomas que me acometeram naaquele dia. Quem fala em público tem que conhecer profundamente o assunto que se propõe abordar e não ter receio do debate que habitualmente se segue. Não era o caso. Também não era o medo natural que toma conta da gente quando vai a um desafio e, muito menos, o fato de ser observado atentamente por professores com anos de experiência em sala de aula.
O que estava acontecendo com um cara experiente como eu, mais de 2 mil treinandos de todas as classes sociais preparados ao longo de uma década; dono de extensa rede de relacionamentos, dois filhos criados, inúmeros grandes auditórios enfrentados com tranquilidade e 42 anos de jornalismo? Por que eu tremia?
Só quando me coloquei à frente dos olhares atentos, brilhantes e curiosos dos jovenzinhos foi que compreendi. Eram crianças! Fazia séculos que eu não conversava com crianças sobre assuntos sérios!
A gente “cria” jeitões de ser para enfrentar o mundo de trabalho, outro para conviver com os amigos, mais um para enfrentar o mundo social, mas, falar seriamente com crianças? Como mensurar o peso das palavras, escolher a forma e o jeito para não desencantá-las antes de estimulá-las?
Elas resolveram por mim. Criança sabe e pode tudo. Bastaram poucos momentos. Eu, apesar de minha cara feia e da voz grave – amigos chegados dizem que tenho que tomar cuidado permanente com a forma com que falo as coisas, já que minha seriedade, ênfase e expressão corporal são capazes de causar a terceira guerra mundial se me arrisco a uma simples ‘tentativa’ de piada... – fui aceito por eles e, num segundo, estavam me endereçando sorrisos, pequenas falas, gestos amigos. Encantei-me. A voz ficou menos tensa. Até brincamos com as palavras, eles e eu... Construímos um ‘nós’. Conquistaram-me.
Vem por aí, e tenho certeza, uma geração amante das palavras, dotada do desejo de construir consciência crítica, de escrever e falar poderosamente na ocasião dos debates que o Brasil não pode mais deixar de empreender. Fiquei feliz em conhecer os estudantes de 4as. e 5as. séries da Escola Iolanda Ribeiro Novais e alguns de seus professores, responsáveis diretos pela cidadania, educação e cultura que me demonstraram.
Grato à Rita pela oportunidade de estar lá. Foi bom e me fez bem. Sem dúvida, meu presente do ano profissional.
CARTAS DE LEITORES E O SARESP
O Saresp - Sistema de Avaliação e Rendimento Escolar do Estado de São Paulo, programa que avalia anualmente o rendimento escolar de milhares de estudantes e, por extensão, das metodologias adotadas em sala de aula, cobrará, este ano, como tema de redação, Cartas de Leitores. Luz no fim do túnel. Finalmente as atenções dos que pensam a Educação se volta para as páginas de opinião de jornais, revistas e sites, exatamente onde estão os pontos de vistas das pessoas sobre os grandes temas nacionais. As seções de cartas são um termômetro do pensamento nacional. O GCN vem registrando, ao longo dos dois últimos anos, ampliação do nível de interação de seus leitores, ouvintes e internautas com nossos veículos de comunicação. Diariamente, cerca de 400 comentários são endereçados ao Comércio, Rádio Difusora e portal GCN.net.br. É muito e demonstra modificação, para melhor, da responsabilidade com a qual os cidadãos desta região se determinam a emitir opinião sobre o impacto dos fatos sobre eles. Tudo melhora quando as pessoas se interessam e agem.
SABATINA
A seção de cartas do Comércio admite que os leitores-comentaristas escolham se querem, ou não, seus nomes publicados. Ainda assim, tem-se que oferecer nome completo, endereço e telefone para que a Editoria de Opinião confirme veracidade, se for necessário. Os estudantes me perguntaram por que, de quando em quando, há reticências entre parênteses, no contexto das cartas publicadas. Disse-lhes que a editoria age para livrar quem lê, de expressões baixas, xulas, palavrões. “Luiz, tem gente que conta as coisas e não assina?”. Tem. Há muito anonimato. “E o que faz com essas cartas?” Mando para o lixo. As pessoas têm que ser corajosas, responsáveis por aquilo que falam ou escrevem. “Dentre os comentários, tem denúncias?” Tem. Denúncias ou imputação de crimes não são publicadas e sim, enviadas à redação, para apuração. Se não procede, descarta-se.
MUNDO MODERNO
O Comércio recebe mais correspondência pela Internet ou pelo Correio? Lembrei-me de outros tempos. A gente escrevia a alguém perguntando se estava bem. Ia ao Correio e postava. Quinze dias depois, recebia “estou bem sim. E você?”. Curtos diálogos precisavam de meses para se completarem. O telefone podia ser mais rápido? Lembro-me também de ligações interurbanas. A telefonista pedia a ligação que podia se dar daí a horas, ou não se dar. Na maioria das vezes a gente desistia. Hoje? Lá na escola abri a página do GCN pela Internet e, juntos, lemos: “Ciclistas batem de frente...”. Fomos ao pé da matéria até encontrar “Seja o primeiro a comentar”. Excitaram-se. “Vamos falar, professora?, disseram a Rita. Ela se sentou e os auxiliou, digitando o que pensavam: “capacetes. O serviço de trânsito deve cobrar uso de capacetes para quem anda de bicicleta”. Escreveram e deram um ENTER. Rápido e fácil. Cheguei ao jornal e li o comentário. Relevante. Publiquei na edição de ontem do Comércio. Gostaram. Vão repetir. Estamos ganhando mais gente com consciência crítica. De novo, parabéns aos professores e à boa escola, que é sim, possível.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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