Todo povo tem suas tradições. Elas são compostas por histórias e costumes e passadas de geração a geração. Podem ser modificadas mas nunca desaparecem por completo da mente das pessoas. Ninguém sabe ao certo quem as inventou. Atravessam séculos impressionando crianças e adultos.
O conjunto de costumes e histórias populares é chamado de folclore. A palavra folclore tem origem nos termos "folk" e "lore" que, em inglês, significam “povo” e “sabedoria”. Sendo assim, o folclore de um país é formado pelos saberes de seu povo. Em nosso país, agosto é mês escolhido para lembrar a importância do folclore.
O povo brasileiro, formado por índios, portugueses africanos, espanhois, italianos e muitos outros grupos, conta com uma sabedoria popular muito rica. Ela está presente na culinária, nas lendas, nas brincadeiras, na música, na dança, nos costumes.
Hoje o Clubinho trará seis lendas, escolhidas entre as doze contadas pela escritora Clarice Lispector em seu livro Como nasceram as estrelas, da editora Rocco. São histórias que o povo conta em todos os cantos do Brasil. São elas: Alvoroço no céu; A perigosa Iara; Uma festa na floresta; Curupira, o danadinho; O saci, A fruta sem nome.
Alvoroço no céu
Em uma floresta, havia um Sapo muito teimoso que queria entrar a qualquer custo em uma festa no céu apenas para animais que tivessem asas. Travesso, o bichinho se escondeu no violão do Urubu e conseguiu entrar. Como toda farsa tem perna curta, o Sapo foi flagrado pelo Urubu, que o ameaçou jogar de volta ao solo. Astuto, ele implorou ao pássaro, olhando para baixo: “Por favor, está vendo aquela pedra e aquele lago? Não me jogue no lago, senão vou me afogar!”. O Urubu, sem saber que o Sapo sabia nadar e estava lhe pregando uma peça, jogou-o no lago para tentar matá-lo. Foi assim que o espertinho sobreviveu.
A perigosa Iara
Iara é uma sereia que em todo mês de maio costuma aparecer cantarolando à beira do rio. Ela sobe à tona das águas em busca de um noivo. Enfeitiça os homens com sua beleza e seu canto. Dizem que, há muito tempo, um índio decidido e ousado resolveu passar perto das águas para ver Iara. Ele se arrependeu de ter dado aquele passo na direção da bela. Era tarde. Ao vê-la, mesmo de longe, ficou completamente enfeitiçado pelos belos olhos da mulher-peixe. Voltou para a aldeia mas passou a sofrer de saudade. Resolveu ir atrás de sua amada. Mergulhou, foi ao fundo do rio. E se casou com ela. Houve até festa entre os peixes! Mas... mesmo depois do casamento, muita gente diz ter visto a Iara em busca de outro marido, nas margens do mesmo rio. Ao que parece, apenas um marido não é suficiente para ela.
Curupira, o danadinho
Os índios contam que na floresta existe uma criatura muito estranha chamada Curupira. Tem orelhas pontudas, muitos pelos em todo o corpo, dentes verdes e pés virados para trás. Diz a lenda que é um ser muito misterioso, feio e esquisito, que aparece quando menos se espera.
Não se pode ignorar que ele é inteligente e protege a natureza. Sempre que um caçador faz mal a um bicho, por exemplo, o Curupira persegue o malvado para se vingar. Além disso, muitos acreditam que se ele pede um favor a alguém e não é atendido, o monstrinho amaldiçoa o sujeito e a praga pega mesmo. Ninguém consegue descobrir o paradeiro do Curupira porque as marcas no chão mostram seus dedos virados na direção contrária para a qual ele ca-minha. Despistam todo mundo.
Uma festança na floresta
Os índios da tribo Tembé contam que, certa vez, foi organizada uma festa na floresta e todos os animais foram convidados. Para que não houvesse violência no evento, uma regra foi imposta a todos os presentes: “Ninguém poderá atacar ninguém”. Acontece que durante o agito, a onça começou a ficar incomodada com a imposição. Como não podia desobedecer a lei, passou a provocar os outros bichos. Chamou a Anta de gorda. Criticou o decote das filhas do Macaco. E por aí foi. Até que apareceu o grande Arapuá-Tupana, o deus dos Veados, que para acabar com a cha-tice da Onça, começou a entoar seu canto mágico. Depois disso, os animais perderam o dom da fala e nunca mais conseguiram conversar como os humanos.
O Saci
O Saci é um menino de uma perna só, que usa um gorro vermelho e vive fumando cachimbo. Travesso, ele aparece nos galinheiros e nas cozinhas das fazendas, assusta as galinhas e coloca moscas nos pratos de sopa. Ainda queima o feijão das panelas e se diverte rindo dos outros. Ele é descrito como um menino de pele negríssima que se locomove por pulos. Como tem uma perna só, vai pulando pelos ca-minhos, com tal agilidade que os que o veem mal acreditam. Enquanto pula ele vai fumando seu cachimbinho, e mantendo na cabeça sua carapuça que é vermelha cor de sangue. Quando ele vê sinais de ser humano, se aproxima para pedir fumo. Quem tem fumo escapa das brincadeiras malévolas dele. Quem não tem, paga pena. Como ouvir um grande estrondo que não se sabe se vem da boca do Saci ou de seu cachimbo.
A fruta sem nome
Dizem que essa história aconteceu em uma época em que as árvores estavam tão fraquinhas que não davam frutas. Certa vez, espalhou-se o boato de que, na floresta amazônica, havia uma árvore especial que tinha frutas deliciosas e encantadas. Acontece que, para comer daquela frutinha, era necessário saber o nome dela. Assim, os animais foram consultar o deus dos índios, Tupã, para saber como ela se chamava. A divindade contou que o nome era “muçá, muçá, muçá”. O problema é que uma velhinha muito gulosa, que queria todas as frutas para ela, tentando confundir os bichos, chegava dizendo “Quero aquela fruta ‘mugá, mucungá, muculungá’”. Com essa tática, a velha confundia a floresta toda. Foi então que o Jabuti, como os outros bi-chinhos, perguntou o nome da fruta a Tupã e começou a repetir “muçá, muçá, muçá” para não se esquecer. A velha, vendo que não conseguia distrair o animal, começou a bater em seu casco com muita raiva. É por isso que até hoje o Jabuti tem o casco com rachaduras.
Clarice Lispector nasceu na Ucrânia em 1920 e veio para o Brasil com seus pais ainda criança. Aprendeu a ler em uma escola do Recife e aos 7 anos já escrevia pequenas histórias. Aos 19, publicou seu primeiro conto em uma revista e, em 1943, seu primeiro romance. Clarice escreveu 26 livros. Em sua obra, encontramos alguns títulos para crianças. Ela faleceu em dezembro de 1977, aos 56 anos.
Serviço
Livro: COMO NASCERAM AS ESTRELAS - Doze lendas brasileiras
Autor: Clarice Lispector
Editora: Rocco
Onde encontrar: Livraria e Papelaria do Contador Avenida Major Nicácio, 1155 Fones: 16 3721-0788
Valor: R$ 31 (Vendas sob encomenda)
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.