O mundo atual é bastante dinâmico. As mudanças atropelam nossas percepções e nos empurram para o novo. Porém, não é menos verdade que muito permanece, sobretudo em termos de cultura e mentalidade. A matéria publicada pelo Comércio na terça-feira, 23/08, nos permite refletir um pouco sobre isso.
Por meio dela, constatamos a falta de marceneiros especializados. Com o aumento da demanda para móveis sob medida, muitas lojas estão encontrando dificuldades para contratar profissionais com experiência. Uma delas, inclusive, saiu de Franca. Voltou para Passos, onde esse profissional ainda é possível, pelo menos por enquanto.
Essa situação não se restringe à marcenaria. Muitos outros setores, aquecidos pelo crescimento da economia, estão enfrentando dificuldades para contratar. As áreas mais técnicas, sobretudo, estão bastante carentes.
O que estaria acontecendo? Em um país que não vive o pleno emprego, era de se esperar que desempregados procurassem por todo e qualquer emprego. Ao descobrirem que existe uma escassez em determinada área, seria muito natural que se preparassem para ela. No sistema capitalista, a oferta é sempre inversamente proporcional à procura. Quanto menos marceneiros no mercado, melhor será a remuneração.
Se analisarmos o aquecimento do setor da construção civil nos últimos anos vamos perceber a crescente procura por técnicos e engenheiros. Vamos perceber, também, o aumento do número de cursos de engenharia e a crescente demanda por parte dos estudantes. Em contrapartida, não percebemos o mesmo movimento em relação às ocupações técnicas. Encontrar hoje um bom mestre de obras, um razoável técnico em eletricidade não é uma tarefa fácil. Os que já estão estabelecidos recebem hoje um salário próximo ao inicial de um engenheiro.
Talvez não haja uma única explicação para isso. Mas, é possível arriscar dois caminhos. Em primeiro lugar, nosso sistema de ensino profissionalizante ainda é muito ruim. Ainda não vingou, a despeito de algumas tentativas. Seguindo a sina da história, nosso ensino médio continua propedêutico. Ao invés de preparar para a vida, adequando-se às mudanças da sociedade, ainda privilegia os conteúdos relacionados ao vestibular, mesmo que ele não seja mais tão significativo.
Em segundo lugar, pode-se notar a presença ainda forte do bacharelismo em nossa sociedade. Um fenômeno social caracterizado pela predominância do diploma na vida social e política, mesmo que no exercício de funções alheias a sua especialidade ou formação.
No dizer de Gilberto Freire, ser portador de um título acadêmico, ser um bacharel, seria o caminho para exercer o poder naquele contexto. Modernamente, serviria também para livrar as pessoas do trabalho manual, considerado culturalmente uma função ‘menor’, desprovida de status.
É só olhar para os cursos que mais matriculam alunos no Brasil. Administração, Direito e Pedagogia somam quase 40% de todos os nossos universitários. Ainda ‘eruditamos’ tudo, como dizia Oswald de Andrade. Uma bobagem.
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