Nos cinco primeiros meses deste ano, o Cerest (Centro de Referência em Saúde do Trabalhador) registrou 3.311 casos de acidentes de trabalho em empresas francanas. Esse número é 53,2% maior que o registrado em 2010, quando 2.168 pessoas ficaram feridas em acidentes desse tipo. O levantamento é feito por um sistema de comunicação chamado Raat (Relatório de Atendimento a Acidente de Trabalho) que recebe todas as ocorrências registradas pela rede de saúde de Franca (hospitais, prontos-socorros e Unidades Básicas de Saúde).
O número de trabalhadores que se acidentaram até o último mês de maio na cidade se torna mais significativo quando comparado ao registrado em Ribeirão Preto, município com 583 mil habitantes (263 mil a mais do que Franca). Lá, foram registrados apenas 823 acidentes de trabalho, quatro vezes menos do que aqui. Para o secretário de Saúde de Franca, Alexandre Ferreira, a diferença entre os dois municípios existe porque os francanos notificam sistematicamente os acidentes de trabalho em todas as suas unidades. “A subnotificação é a coisa mais fácil de acontecer”, disse Ferreira.
O sistema também informa quantos acidentes ocorreram no caminho do trabalhador entre a casa dele e o serviço e quantos aconteceram na empresa (veja em quadro nesta página). O relatório não detalha, no entanto, as circunstâncias em que as vítimas se acidentaram - se no desempenho efetivo de suas funções ou não. Isso significa que um funcionário que se machuque ao escorregar e cair dentro da empresa, por exemplo, é considerado vítima de acidente de trabalho, mesmo que a queda não tenha nada a ver com a função que exer-ce na companhia.
Há ainda uma terceira possibilidade para que o trabalhador seja considerado acidentado e afastado do serviço: as doenças ocupacionais. Para exemplificar, uma “fisgada” na coluna ou uma tendinite no pulso podem ser consideradas acidente de trabalho se um médico atestar que a lesão tem a ver com o esforço laboral, como acontece com digitadores e com quem trabalha carregando peso.
A falta de detalhamento das ocorrências pode dificultar a identificação de falhas no esquema de segurança das empresas, retardar a busca soluções e atrapalhar a apuração de responsabilidades. Grosso modo, não dá para saber quais companhias têm problemas de segurança em sua linha de produção - o que levaria o trabalhador a se acidentar no efetivo desempenho de suas funções - e quais têm o ambiente de trabalho seguro e registram acidentes em situações que não têm relação com a atividade produtiva do trabalhador dentro da empresa.
“Hoje, ainda não temos esse refinamento dos registros nos sistemas existentes, mas a ideia é trabalhar para que essa identificação seja possível”, disse o secretário.
Os setores campeões em acidentes de trabalho são o calçadista com 800 casos, o de serviços com 382 e o da construção civil com 762 acidentados. As vítimas mais comuns são homens com idades entre 20 e 29 anos que sofrem ferimentos leves nos membros superiores, principalmente nas mãos, e ficam afastados do trabalho de um a cinco dias. “Isso condiz com a característica manufatureira de nossa indústria calçadista. Agora temos que treinar os médicos, os atendentes, os técnicos de segurança do trabalho das indústrias e o pessoal das Cipas (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) das empresas para evitar acidentes com as mãos porque assim estaremos evitando mais de 40% das ocorrências”, disse Ferreira.
Jamil Leonard, gerente regional do Ministério do Trabalho, credita o crescimento no número de acidentes de um ano para o outro ao desenvolvimento do município. “O nível de emprego aumentou na cidade e a população está economicamente mais ativa”.
Ainda segundo Jamil, atualmente 11 auditores do órgão fiscalizam as normas de segurança em empresas da cidade.
O ajudante geral Afonso Ubirajá de Oliveira, 52, engrossa a estatística. Ele trabalha em uma empresa de materiais pré-moldados. No início do mêsde julho, Afonso foi instalar um poste de concreto que caiu sobre o dedo anelar de sua mão esquerda. “Ele ficou 15 dias afastado por conta do dedo quebrado”, disse a mulher dele, Sirlei de Oliveira.
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