O ônibus parou rangendo os freios, fazendo vibrar a plataforma em que estava. O ruído estridente o tirou de uma espécie de transe em que se mantinha desde que retornara à cidade. Dois longos anos longe de casa, sem dar notíciasà Submetera o casamento e o amor da sua vida a uma prova de fogo que jamais quisera, que jamais imaginara. Fora a medida mais branda que conseguira urdir para sair do inferno interior em que se encontrava. Tinha plena consciência de que daí poderia resultar inferno maior, mais violento, mas fora o melhor que pudera fazer.
Sentou-se no último banco e começou a rememorar os fatos desde que partira. Foi mais longe, lembrou-se da fábrica, do tempo em que conhecera Carminha, meiga, bela, extrovertidaà Ele, tímido, calado, contido. Lembrou-se dos grupos de jovens da igreja se reunindo aos domingos, das missas. Ela sempre se insinuava, alegre, festiva. Ele tremia, chegava a ter calafrios. Ela acabou tomando a iniciativa. Por algum tempo permaneceu arredio, desconfiado. Mas foi se acostumando, embora a natural liberdade com que ela se movia em meio aos amigos lhe trouxesse desassossego, um medo inexplicável, opressivo. Se lhe fosse possível, teria proposto a ela algumas mudanças de comportamento. Mas seria como pedir ao beija-flor que não abrisse as asas, ou pedir ao arco-íris que disfarçasse as belas cores de que é composto... Nunca teve coragem. Casaram. Viviam bem, embora não fosse totalmente livre, embora a dúvida lhe sombreasse a alma, embora cada vez mais o aprisionasse o medo. Até que no dia da greve, o maldito dia da greve, em que tivera de voltar mais cedo pra casaà Não vira nada que a incriminasse de fato. Mas era sempre a mesma coisa, nunca sabia de nada ao certoà Mas, as dúvidas, nas circunstâncias, lhe bastaram. Afinal, não era mesmo normal que mulher casada ficasse no portão de casa a conversar com amigos com aquela intimidade, com toques recíprocos, com brincadeiras descontraídas que nem com ele mesmo ela ensaiavaà Fizera bem em não descer do ônibus naquele dia. Teria havido uma tragédia. Fizera bem ao se esconder, em fingir amarrar os sapatos para não ser vistoà Mas, e agora? Teria feito bem em ir embora sem dizer uma palavra e voltar assim, sem aviso? Chegara a hora de saber!
O ônibus parou a alguns metros da casa. Uma sensação de tristeza profunda invadiu-lhe o peito. No quintal, sinais de abandono, de desleixo e solidão. Teve vontade de voltar, de se manter longe, ao mesmo tempo em que desejava ardentemente saber se sua ausência fora sentidaà Uma vizinha antiga, do tempo da sua infância, o viu se aproximando. E foi fria, direta: “como pôde fazer uma coisa dessas, meu filho? “Cadê eles?”Essa foi sua reação brusca, violenta.”As crianças estão com a avó...”Ia dizendo a velhinha, quando novamente foi interrompida. “Seià Seià Mas e ela? Cadê ela?”E a resposta veio dorida, como um imenso peso depositado sobre os seus ombros: “A Carminha sei foi, meu filho, não teve jeito... Morreu. Pneumonia, dizem...” Não querendo acreditar, inda uma vez insistiu, mas a mulher, baixando os olhos marejados, completou entre soluços:”Ela andou à sua procuraà Ficou amuada por um tempo... E caiu doente”. Estranha calma lhe acudiu o espírito no primeiro instante. Tinha a sensação de que se realizara algo de que já sabia há longo tempo, mas que se recusava a aceitar. Parou por alguns segundos e saiu devagar, decidido a pôr fim ao inferno que se tornara a sua vida desde o dia em que conhecera aquela mulher. Mas ouviu uma vez mais a frágil voz da vizinha: “As crianças chamam pelo senhor todos os dias...” Foi como nova lança a lhe cravar no peito lacerado, a amável observação. Mas, uma lança que podia ser arrancada, que não tinha o matiz da fatalidade, pelo menos. Virou-se em direção à casa da sogra, trêmulo, macambúzio. E começou a murmurar baixinho, enquanto caminhava: “Pai nosso que estais no céuà Que seja a Vossa vontadeàQue seja a Vossa vontade...”, repetiu erguendo os olhos para o infinito. “ Perdoai... Perdoai...” E então, pesadas, as lágrimas começaram a lhe descer pelo rosto. Alguns passos mais e avistou duas lindas crianças que corriam alegres, festivas, em sua direção...
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