Nosso querer é habitado por múltiplos desejos.
Os desejos não são bons nem maus, eles são apenas uma fonte. À medida que tomam corpo, aparência e voz, eles vão se definindo. Alguns se apresentam fortes, bem vestidos e cheios de si; outros, pelo contrário, ainda que se saibam desejos, procuram esconder a alma dentro de vestimentas mentirosas, mostrando ser o que não são.
E aí acontece a ausência. Quando esses desejos não se realizam, o lugar deles é tomado por uma espécie de dor, medo ou ilusão. A partir de então, essa ausência, passa a produzir apenas atos externos, vazios, destituídos de qualquer sentido.
Nesse impasse, nós nos desconectamos do querer do momento. É esse querer que tem a centelha vital, a fonte verdadeira. É ele a Presença. Estar presente é estar física, emocional e mentalmente num mesmo lugar. Presença é condição de inteireza. É ficar feliz com o que se tem no aqui e no agora, ainda que constatando que o outro, diverso de nós, tem muito mais. Quando nosso desejo olha para o outro, com um olhar de inveja cria-se um ilusionismo: aquilo que eu tenho fica reduzido e o que o outro tem fica ampliado. Diz Rubem Alves que “a comparação nos deixa de mãos vazias”. Mas admitir que sentimos inveja é quase um ato heroico. Essa palavra é considerada maldita e só faz parte do mundo do outro, nunca do meu. Assim, vivemos plenos de desejos ilusórios, mal resolvidos e ainda carregando a dor de nos sentir (quantas vezes!) menores e mais frágeis. No outro extremo, também, a mesma comparação pode nos deixar vaidosos, julgando-nos melhor que o outro. Tanto em um caso como no outro, é a ausência de si próprio que mantém o status.
Pode parecer muito simples, mas o único desejo do Criador é que tenhamos sempre a clareza e o discernimento para viver o querer do momento. Para o Criador, sua criatura deveria ser plena de agora. Para a Fonte da vida nós nunca poderíamos nos evadir da responsabilidade de viver cada momento. Passaríamos então a carregar, com dignidade, nossa presença. Presentes estaríamos em todos as cenas da vida, pontuando cada passo, recolhendo cada tristeza e amenizando cada vitória com a humildade necessária. Muitas vezes, nossa ausência se faz quando buscamos dissuadir a nós mesmos a não fazer aquilo que sabemos ser necessário fazer. A presença, ao contrário, faz o que tem que ser feito, independente da aprovação do outro. O que vale é a autorreferência, é a certeza da travessia, o vislumbre de onde se quer chegar.
Afogados no meio de tantos desejos, deixemos vir à tona o querer verdadeiro.
E onde queremos nós chegar, navegando por essa vida, a não ser no porto verdadeiro, sincero, sem camuflagens? “Navegar é preciso”, dizia o poeta. Naveguemos...
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