Primeiro foi o Ministério dos Transportes. As denúncias até não eram tão novas. Segundo vozes experientes, já estavam marcadas no DNA do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes). O velho e bom dinheiro dos caixas de campanha, acompanhado, é claro, de apropriações ilícitas, propinas e outros desvios que vão ocorrendo pelo caminho.
O inusitado foi a reação da presidente. Sem titubear, Dilma demitiu o ministro e ordenou a faxina. Foram quase 20 funcionários em poucos dias. Como peças de dominó, foram caindo na mesma proporção que as suspeitas foram surgindo.
A base aliada chiou. Ao invés de cobrar o decoro, ameaçou a presidente, uma triste prática de nossos políticos. Na linha do que pregava Getúlio Vargas, até defendem as leis, mas aos amigos as suas benesses; aos inimigos, seus rigores.
Em um primeiro momento, a presidente pareceu enfrentar não apenas a base aliada, mas também essa chaga de nossa história política.
Porém as denúncias começaram a sair pelo ladrão e a coisa complicou-se. Logo veio o Ministério da Agricultura - que culminou com o pedido de demissão de Wagner Rossi - depois o do Turismo. Várias pessoas foram presas. E aí a presidente foi obrigada a recuar, já que o lixo da faxina agora pertencia ao PMDB, seu principal aliado.
Ao contrário do que fez nos Transportes, Dilma interrompeu a faxina. Apoiou os ministros e tentou acalmar a base aliada, prometendo, inclusive, a tão aguardada liberação das verbas parlamentares. Como se não bastasse, mudou seu discurso e entrou em rota de colisão com o MP.
Uma pena. Por um breve momento, pudemos acreditar que a transparência poderia se abrir sobre os céus de Brasília. Ledo engano. Alguns gritos e ameaças veladas foram suficientes para nos trazer de volta à velha realidade desses tristes trópicos, como vaticinou um dia o antropólogo Claude Lévy-Strauss.
Mas não devemos desanimar. Talvez a presidente Dilma tivesse realmente a intenção de limpar um pouco mais a sujeira que invade o planalto. Talvez esteja apenas realizando um recuo estratégico, para garantir a tão propalada governabilidade. Ou talvez esteja sozinha.
De qualquer forma, é bom que a presidente comece a costurar melhor a escolha de seus ministros com a base aliada. Do jeito que as coisas estão indo, o governo ficará paralisado pela sequência de escândalos. Como disse o deputado federal Rubens Bueno (PR), ‘a corrupção no governo parece um saco de caranguejo, você puxa um e vem outro grudado’.
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