A vida é um embate constante. Evoluir não é fácil. Da mesma forma que uma criança sofre com seus primeiros dentes e com todo o processo de crescimento, também nós, adultos, enfrentamos uma luta árdua e diária com o cotidiano para nos tornamos melhores, contribuindo cada vez mais para uma sociedade mais justa e harmoniosa.
Se olharmos para o passado, vamos perceber que o saldo desse processo histórico de evolução pode ser visto como positivo, a despeito do muito que ainda precisamos fazer para melhorar não apenas o mundo em que vivemos, mas também as nossas próprias práticas cotidianas.
Há momentos, no entanto, em que a incredulidade nos acomete. Paramos estarrecidos diante de ações que já pensávamos banidas para sempre de nossa existência.
A suspeita que pesa sobre uma dona de casa de São José da Bela Vista é, com certeza, um desses momentos. Reportagem publicada pelo Comércio no sábado, 13/08, mostra que ela é acusada de ter vendido a virgindade da filha para um político de Ribeirão Preto. Para agravar o sentimento de repulsa, a menina, de 18 anos, apresenta retardo mental moderado.
Mesmo considerando que as investigações estão apenas no início e que é muito perigoso adiantar qualquer julgamento, acreditamos que o tema merece a mais ampla repercussão. Ao incomodar as pessoas, acaba provocando uma reflexão sobre a prostituição de crianças e adolescentes.
Sabemos que a venda de filhas para abastecer os desejos abjetos de políticos e empresários não é um fato inédito no Brasil. Ao contrário, em muitos de nossos rincões de pobreza extrema essa prática persiste até com certo desembaraço, algo que foi muito bem relatado pelo excelente filme Anjos do Sol, de Rudi Langemann. ( Nesses casos, aliciadores de prostitutas iludem os pais dessas crianças com promessas de vida melhor em outros lugares. Iludidos - e necessitados -, esses país acabam vendendo suas filhas que posteriormente serão objetos de leilões em prostíbulos freqüentados por pessoas poderosas e abastadas. A partir daí, iniciam uma caminhada de difícil retorno, aprofundando-se cada vez mais na prostituição).
Se é triste pensar que um pai ou uma mãe conseguem vender sua filha a um estranho, o que não dizer dessas taras doentias que permeiam a alma masculina? Se considerarmos que esses políticos e empresários são pessoas de sucesso na vida cotidiana, pais de família, participantes de entidades assistenciais e talvez até freqüentadores de cultos religiosos, como entender esse desejo insano por tirar a virgindade de uma garota, desejo capaz até mesmo de fazê-los arriscar a própria reputação ou tudo o que conseguiram conquistar?
Difícil entender. Porém, mais difícil ainda é aceitar esse absurdo nos dias de hoje. Meninas e adolescentes não são troféus. Um pouco mais de humanidade faria bem a esses senhores.
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