Hoje, Dia dos Pais, ninguém tem tantos motivos para festejar quanto Luiz Carlos Ferreira, 61. São pelo menos 35 deles. Esse é o número de crianças e adolescentes que moram com ele e a mulher Conceição Ferreira, 57, na Chácara Sorriso. Isso sem contar os outros 415 jovens que já se abrigaram sob as “asas” do casal nos últimos 25 anos.
A casa, que fica na via de acesso a Patrocínio Paulista, na saída da Rodovia Engenheiro Ronan Rocha, chegou às mãos de Ferreira em 2000 por bondade de uma quase estranha - a amiga de uma cunhada que mora na Itália. E pela generosidade de conhecidos, ela é mantida desde então. A família não recebe um tostão de dinheiro público - federal, estadual ou municipal. “Quando vejo na despensa que vai faltar alguma coisa, como já conheço as pessoas, falo como está a situação aqui em casa e de imediato tudo é abastecido novamente”, disse ele, sem informar ao certo o quanto é gasto por mês.
Ferreira é mineiro de Delfinópolis, mudou-se para Franca ainda jovem e com 23 anos resolveu tentar a vida na capital. Foi em São Paulo, ao lado da favela Pacheco Chaves - uma das maiores da cidade - que as crianças começaram a bater à porta dele. “Acho que não tem explicação. É coisa de Deus, mesmo.”
De volta a Franca, na década de 80, o ex-pintor de automóveis chegou a abrigar 28 crianças em uma casinha no Jardim Aeroporto. “Naquela época, eu era o único em Franca que acolhia crianças e adolescentes abandonadas por maus-tratos.” Hoje, a Chácara Sorriso tem capacidade para até 80 jovens, que são encaminhados ao local pelo Ministério Público. “Acolhemos jovens de oito municípios. 70% deles são de Franca.” O menor tem apenas quatro anos. O mais velho tem 48 e é portador de necessidades especiais.
Com tantas pessoas para dar atenção, era de se esperar que o senhor de 61 anos mostrasse sinais de cansaço, falhasse em dar atenção para alguém ou ao menos reclamasse da bagunça. Nada disso. No meio da tarde, quando reportagem chegou ao local, Ferreira fez questão de mostrar toda a propriedade rural, seus 25 dormitórios, capela, cozinha, banheiros, etc. Em todos os lugares encontramos jovens rindo, brincando e realizando tarefas domésticas. Tudo ao mesmo tempo, mas com incrível organização. E de onde vem tanta disciplina? “Aqui, a primeira coisa que eu faço é educar na fé, o resto é consequência. Meu trabalho dá resultado em 99% dos casos. E o começo dele é exatamente assim, na fé.”
O pai das crianças admitiu enfrentar os problemas normais com os adolescentes, mas garantiu que o número de crianças não agrava a situação. “Sou igual a qualquer outro pai. Simplesmente tenho cuidado de mais filhos do que os outros. A diferença é essa. Cuidar de um filho ou 450 é a mesma coisa. O carinho tem de ser o mesmo. O amor é o mesmo.”
Comércio da Franca - Como começou seu trabalho com crianças carentes?
Luiz Carlos Ferreira - Foi em São Paulo. Eu morava ao lado da maior favela da época, a Pacheco Chaves. Acolhia as crianças em minha casa durante o dia. Dava banho, comida, remédio e catequese. À noite eles retornavam para os barracos. Tudo com meus próprios recursos, de livre e espontânea vontade.
Comércio - O senhor permaneceu na capital de 1972 a 1985. Quando voltou para Franca, como deu seguimento ao trabalho aqui na cidade?
Luiz Carlos - Na época, comprei dois comodozinhos no Jardim Aeroporto I. Foi uma das primeiras casas do bairro. Quando completou seis meses que eu estava na cidade, mataram meu cunhado em São Paulo. E ele tinha quatro filhos. Fui para a capital, busquei as crianças e comecei a cuidar. Nesse meio tempo, começaram a aparecer meninos na minha porta. Primeiro foi um casal de gêmeos - o máximo que eles tinham era seis meses - e eu cuidei deles por três anos. Depois apareceu um menino em uma sacola que nem banho tinha tomado. E assim foi... Apareceram muitas crianças e eu fui acolhendo.
Comércio - Quando vocês mudaram para a Chácara Sorriso?
Luiz Carlos - No Aeroporto, minha casa era pequena. Já estava com 28 crianças lá. Tenho uma cunhada que mora em Roma e estava no Brasil, na minha casa, passeando. Ela recebeu a visita de uma amiga que também mora na Itália. Essa mulher passou 15 dias com a gente e na hora de ir embora disse: “Luiz, estou indo para Roma e daqui dez dias estou de volta, arruma um espaço maior que vou doá-lo a você”. Escolhi essa chácara e ela comprou. Colocou no meu nome e foi embora. Faz 11 anos que estamos aqui.
Comércio - Como era o terreno quando vocês chegaram?
Luiz Carlos - Tinha uma cozinha -que já foi completamente reformada -, dois dormitórios, uma sala e um banheiro. O terreno não era cercado. Eu que fiz tudo. Hoje, temos instalações para acolher 80 crianças, com todos os requisitos necessários. Temos um refeitório e 25 dormitórios - separados por idade e sexo - com um banheiro e uma sala de televisão cada um. Há também o pomar, a horta, um campinho de futebol e uma capela.
Comércio - Depois da chácara pronta, quantas crianças apareceram?
Luiz Carlos - Para você ter uma ideia, eu cheguei aqui em 2000 com 28 crianças. Em 2004, tinha 78 crianças aqui dentro. Minha vinda para cá aumentou muito o número de crianças. Pessoas de todo o município me ligam, implorando porque querem uma vaga para uma criança ou adolescente. Acho que não tem explicação. É coisa de Deus mesmo.
Comércio - Mas vocês não recebem qualquer criança. O trabalho de vocês é de família de apoio com cadastro no Ministério Público. Como conseguiram essa autorização?
Luiz Carlos - Isso ocorreu em Franca, em 92, quando surgiu o primeiro Conselho Tutelar da cidade. Procuramos os conselheiros e de lá fomos ao Fórum para conversar com o juiz. Naquela época, eu era o único em Franca que acolhia crianças e adolescentes abandonadas por maus-tratos. Depois disso, surgiram mais famílias.
Comércio - De onde vêm as crianças que vocês acolhem?
Luiz Carlos - Acolhemos jovens de oito municípios. 70% deles são de Franca, mas também tem de Patrocínio Paulista, Cássia, Claraval, São Joaquim da Barra, Orlândia e até do Rio de Janeiro e Rio de Janeiro e Minas.
Comércio - Nesses 26 anos o senhor não só acolheu, como também adotou alguns jovens. Por que decidiu adotá-los?
Luiz Carlos - Tenho 33 adotadas. Todos esses meninos têm um processo e esse tramite tem que ter um final. Quando o processo chega ao fim todos os órgãos competentes que trabalham com crianças e adolescentes são consultados, para ver se alguém quer adotar. Se ninguém quiser, o juiz me consulta. Eu sou o último. Tem crianças que ficaram dez anos comigo e que se eu falar não o juiz tem por obrigação imediata retirá-los daqui. Como não há outro lugar para levar, com certeza muitos voltarão para rua e todo o trabalho que fizemos em dez anos voltaria à estaca zero. Então eu adoto. Registro com meu nome para que ele continue aqui e tenha uma estrutura familiar.
Comércio - Além disso, o se nhor também tem filhos biológicos, não é?
Luiz Carlos - Sim. Eu e a Conceição nos casamos em 1972. Desde o início ela está comigo nesse trabalho. A ajuda dela é fundamental. Conversamos, falamos a mesma língua. Ela me dá um suporte muito grande. Sem ela, jamais conseguiria fazer o que faço aqui. Sem ela, eu até teria forças, mas juntos é tudo muito mais fácil. Tivemos três fi lhos, que hoje já estão criados, casados. Dois homens de 38 e 27 e uma mulher que hoje tem 32 anos. Criamos todos juntos, sem fazer diferença entre adotados e biológicos.
Comércio - Qual é seu orçamento mensal? E como o senhor consegue as doações?
Luiz Carlos - Como faz 35 anos que a gente trabalha, todo mundo conhece a gente, principalmente o pessoal de Franca. E formamos grupos de doadores. Quando vejo na despensa que vai faltar alguma coisa, como já conheço as pessoas, falo como está a situação aqui em casa e de imediato tudo é abastecido novamente.
Comércio - Lidar com adolescentes não é fácil. O senhor já teve problemas com os garotos?
Luiz Carlos - O Estatuto da Criança e do Adolescente não permite que a gente fale muito dos problemas deles. Mas temos muitos problemas com os adolescentes, vários tipos de problemas, com o trabalho, de desobediência...
Comércio - Como a rotina deles é organizada?
Luiz Carlos - O que mais me emociona e até acho impressionante é que todo ser humano que não é educado na fé, não tem como respeitar ninguém. Aqui, a primeira coisa que eu faço é educar na fé, o resto é consequência. Meu trabalho da um resultado em 99% dos casos. E o começo dele é exatamente assim, na fé.
Comércio - Sente-se orgulhoso por ter sido pai de aproximadamente 450 crianças?
Luiz Carlos - Não tenho orgulho de mim, não. Sou igual a qualquer outro pai. Simplesmente tenho cuidado de mais filhos do que os outros. A diferença é essa. Cuidar de um filho e 450 é a mesma coisa. O carinho tem de ser o mesmo. O amor é o mesmo. E o respeito por eles tem que ser o mesmo. Não muda nada.
Comércio - É fácil ser amigo e companheiro de 35 filhos de uma vez?
Luiz Carlos - É a maior facilidade. Tanto na parte masculina quanto na feminina. Costumo reuni-los e converso. Sou um pai liberal. Com as meninas, falo tudo o que tenho que falar. Converso normalmente, não tenho receio. E tem dado muito certo ser amigo, falar a verdade, corrigir na hora certa e ser um pouco duro quando precisa. Isso é normal.
Comércio - Como vocês fazem para todos irem a escola?
Luiz Carlos - Até a 5ª série, os mandamos para uma escola em Patrocínio Paulista. Da 5ª série em diante, vão todos para Franca. Às 6h30 já estou com a perua cheia.
Comércio - O que o senhor acha que falta à sociedade de hoje?
Luiz Carlos - Falta a educação na fé. Muitos pais hoje pagam a educação do filho, sendo que eles têm de educar seus filhos, não pagar os outros. Todo filho que é educado com o pai pagando não tem aquela responsabilidade, aquele respeito. Na escola, se envolve em situações que não o levam a lugar algum. O pai hoje tem que ser amigo do filho, um paizão, orientar, conversar, esse é o verdadeiro pai.
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