As pitangueiras abriram a florada não se importando com o frio cortante e repentino, muito menos com o ar extremamente seco. Recordo que, quando criança, costumava ouvir: “agosto é mês de cachorro louco”. Nunca compreendi a razão do dito popular, mesmo porque, apesar de ter havido um acréscimo significativo no número de animais, a loucura que consigo visualizar hoje se faz mais presente na bestialidade de alguns seres humanos, e não na raça canina.
Cães à parte, referia-me ao fato das pitangueiras florirem num mês com umidade relativa do ar muito baixa, poeira e frio a judiar de nossos pulmões.
Essa frutinha de sabor delicado e odor misteriosamente agradável, como que por milagre eclode de dentro da flor branca e vai se transformando até se tornar uma esfera vermelhinha, pequenina sim, quase uma miniatura de moranga, porém suculenta e com o indefectível sabor, claro, da pitanga.
Em fins de agosto, início de setembro, os pés estarão carregados qual árvores de Natal montadas pela mãe natureza. É a festa para sanhaços, sabiás, bem-te-vis, cambacicas, etc. Vou ficar esperando os frutos madurarem já que possuo dois pés no quintal de casa. Vou aguardar também ansiosamente que a Sônia Machiavelli , com suas receitas maravilhosas, dê subsídios gastronômicos para que todos os leitores do Comércio, inclusive eu, possam degustar uma torta, um doce ou, quem sabe, uma carne assada ao molho de pitanga ...
Existe uma cidade denominada Pitangueiras, a cerca de 50 quilômetros de Ribeirão Preto. Na sua avenida central, margeando um córrego, foram plantadas nos dois lados dezenas de pés de pitanga. Lá se encontram algumas espécies da pitanga vinho, que exibem a cor desta bebida quando madura e têm um sabor agridoce inigualável.
Foi nesta cidade, que mais parece uma ilha num mar de cana, tal a quantidade de usinas de açúcar e álcool que a rodeiam, que um dia conheci uma pitanga determinante nos rumos de minha vida. Me apaixonei antes mesmo de prová-la e cultivo até hoje esta planta, mãe dos meus filhos, dona do meu coração. Espécie rara da fruta, coube a mim, talvez imerecidamente, a adorável tarefa de cultivá-la no fértil solo da alma.
O poeta Josaphat Guimarães França a conheceu por pouco tempo, pouco se falaram, foram poucas as trocas de idéias. No entanto, antes de morrer ofereceu um livro seu de poesia, com a seguinte dedicatória : “ Para Izis; pitangas do meu espírito, doces e amargas, caídas no chão do tempo e aqui recolhidas...”
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.