Sonhos, música e trabalho


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Até bem pouco tempo atrás, pode-se dizer que havia certo desprezo pelos trabalhos manuais. Em um país de forte tradição escravocrata, ‘colocar a mão na massa’ não era bem visto pelos brasileiros. Em função da cultura ibérica que permeava nossa formação, considerávamos como mais dignos os trabalhos intelectuais, que envolvessem a retórica, a filosofia e a ciência.

E assim fomos evoluindo. A lavoura, e depois a indústria, eram para os negros e para os operários. Aos mais abastados cabiam ‘as coisas’ da política, da administração e da cultura.

Essa rígida separação, mesmo que atenuada com o passar dos anos, foi gerando uma dualidade no mundo das artes e da cultura. Uma arte popular, mais simples e menos valorizada, voltada para o entretenimento das massas. Outra sofisticada, culta e valorizada, voltada para a pseudo intelectualidade.

Nesse sentido, a reportagem publicada pelo Comércio no domingo, 31/07, enseja uma interessante reflexão sobre as mudanças e as permanências que, mesmo lentamente, vão se digladiando na evolução de nossa sociedade.

A participação de cinco jovens trabalhadores na Orquestra Sinfônica de Franca é um bom sinal de mudança. Pelo que reza nossa tradição, eles estariam fadados no máximo aos instrumentos populares e aos bares que se abrem a esses músicos. Porém, por esforço próprio, acabaram por invadir a seara da música e dos instrumentos clássicos, antes reservados aos mais ‘cultos’ e bem nascidos.

Porém, é justamente aí que podemos verificar permanência desses históricos preconceitos. Esses jovens se fizeram pelo seu próprio sacrifico. Como diz o maestro da Orquestra, Nazir Bittar, são autodidatas. Não foram estimulados pela escola, nem tiveram seu talento percebido pelos professores. Como não pertenciam às classes de mais alta renda, talvez ninguém tenha se arriscado a ligá-los à música clássica.

Afinal, como um pedreiro e um adestrador de cães poderiam tocar trompete? Como um pespontador poderia ‘navegar’ pela flauta e pelo sax? E como um vidraceiro conseguiria se esmerar no clarinete e um motorista se entender com um trombone?

Mas o improvável aconteceu. Com obstinação, esses jovens conseguiram mostrar que o preconceito e a falta de condições financeiras não representam razões para separar o trabalhador das mais altas esferas da arte e da cultura. Capacidade, talento, competência, aliados ao esforço, falam mais alto.

Se nossas autoridades dessem mais atenção à educação e à cultura, talvez conseguíssemos descobrir vários outros talentos espalhados pelos mais profundos rincões desse país.

Portanto, tomara que esses jovens continuem se aprimorando. Que se profissionalizem, se assim desejarem. Embelezem o contexto onde vivem com sua arte.

O homem, em sua essência, não se separa em classes. Sensibilidade e criatividade estão ligadas ao humano que existe em nós, não às determinações sócio-econômicas que nos impactam e rotulam.

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